quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Raul Seixas 5 - Gita (1974)

Oi, eu sou o Salinas! Gita é o maior sucesso da carreira de Raul: com seu primeiro disco de ouro, a partir daqui ele fica conhecido em todo o país. Mas a fama traz seu preço: a divulgação da Sociedade Alternativa, que já rolava desde o ano anterior, faz com que Raul fosse preso, torturado e exilado nos Estados Unidos. Mas o disco já estava gravado. Raul, putaço com a situação, usa roupa de guerrilheiro e guitarra vermelha na capa, só de pirraça. ("vai me prender de novo agora, vai?!?") O disco faz tanto sucesso que eles resolvem liberar o Raulzito, já que seu sumiço daria na vista.

A Sociedade Alternativa era uma organização de verdade, com sede alugada, papel timbrado, relatórios contábeis. Ela se baseava no Livro da Lei e na lei de Thelema, ambos de Aleister Crowley (sim, o mesmo que foi homenageado por Ozzy Osbourne, mais ou menos nessa época). A Lei se resume basicamente na famosa frase: "Faça o que tu queres, pois é tudo da lei". Eles estavam tentando conseguir dinheiro pra fundar a Cidade das Estrelas em algum lugar no interior, e pra isso tinham que ter sócios, fontes de financiamento etc. Seria uma espécie de clube, onde vc pagaria pra participar e viver (ou não) na tal Cidade, da forma como quisesse, o que significa poder plantar e colher, seja comida, arte ou ideias, sem importar se você era artista ou careta, intelectual ou dona de casa.

Mas claro, os militares não gostaram nada disso. Chamaram Raul e Paulo Coelho pra depor no DOPS e eles, inocentes na época, pensavam estar apenas espalhando as boas novas. Mal comparando, seria algo mais próximo de uma Cultura Racional (sim, aquele pessoal que fica na Barão de Itapetininga - SP). Mas como hoje sabemos, os militares viam engajamento político em qualquer grupo, com interesse em derrubar governos.

O disco no geral é bastante engajado, continuando as críticas à ditadura, mas com várias canções mais filosóficas e existenciais, algumas girando em torno da Sociedade Alternativa. Há um "esforço de propaganda" em relação à Sociedade, para apresentar o conceito e convidar o ouvinte a participar dela. É a síntese do pensamento engajado dos 70's, não no sentido político, mas de se levantar e pôr a mão na massa.

"Super Heróis" (Raul / Paulo)

Raul começa num rock lentinho, contando como, em companhia de seu amigo Paulo Coelho, encontra pela rua várias personalidades conhecidas, ou "super-heróis", como Silvio Santos, rei Faiçal, Mequinho, Pelé e Emerson Fittipaldi. (curiosidade: 40 anos depois do disco, todos eles ainda vivem, com exceção do rei Faiçal, que já era falecido na época). Mas aqui a crítica velada é sobre o uso de figuras públicas e celebridades, inclusive do esporte, para ocupar a população: "Como é que eu posso ler se eu não consigo concentrar minha atenção / Se o que me preocupa no banheiro, ou no trabalho é a seleção (Vê se tem Kung Fu aí em outra estação)". A imagem do Fittipaldi atropelando Mequinho (o maior enxadrista brasileiro da história) também tem essa leitura, afinal é um ícone do esporte sobrepujando um ícone do raciocínio.

"Medo da Chuva" (Raul / Paulo)

Numa seresta sobre relacionamentos, Raul fala sobre a liberdade e sobre as oportunidades amorosas perdidas por um casamento antes da hora. O "medo da chuva" na verdade é o medo do novo, e ao perdê-lo Raul se abre à possibilidade de uma vida a dois muito mais feliz, sem as cobranças do casamento clássico-cristão-medieval-ocidental. Mas existe outra leitura referente, claro, à ditadura: "o que o padre falou" seriam os militares, "ser escravo" seria seguir as ordens do governo e as "pedras" seriam as pessoas que apenas vivem sem se questionar, "chorando sozinhas sem sair do lugar". Tem quem diga ainda que essa música seria uma indireta para sua mulher na época, Edith Wisner.

"As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor" (Raul)

Raul fala neste repente sobre essas conversas insossas de boteco, que não chegam a lugar nenhum, e que no fundo são só máscaras de quem quer derramar suas frustrações. Uma análise mais detalhada pode ser encontrada aqui. Dois pontos importantes pra entender a mensagem, é que "sist" no caso é o sistema, o capitalismo, o governo, o establishment, ou o nome que você quiser dar. E "transar", na época de Raul, não queria dizer sexo, mas tão-simplesmente trocar: experiências, ideias... (de certa forma não mudou tanto assim).

"Água Viva" (Raul / Paulo)

Os mais religiosos imediatamente identificam nessa balada uma ode a Deus, a fonte de todo amor. Mas é difícil imaginar Raul fazendo esse tipo de coisa. Ele se refere, isso sim, ao próprio espírito do ser humano. O coração e a mente, onde "está escondido o segredo desta vida", apesar das "correntes caudalosas". A fonte é inesgotável, "ainda que seja de noite", mas por mais que haja progresso, sempre temos muito que aprender, pois "ainda é de noite, no dia claro dessa noite"!

"Moleque Maravilhoso" (Raul / Paulo)

Nesse inesperado jazz, uma declaração de arrogância do Maluco Beleza? Ou uma crítica a quem faz isso, cada vez mais comum hoje e com certeza já naquela época? Ou ainda uma referência a não ter medo de se dizer ou ser aquilo que se quer, ele se vendo como um "bastardo na vizinhança", ou seja, um corajoso entre os medrosos.

"Sessão das 10" (Raul)

Aqui Raul regrava um de seus clássicos da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, não mais como seresta e sim como bolero. A letra é a mesma, falando sobre os relacionamentos baseados apenas no corpo.

"Sociedade Alternativa" (Raul / Paulo)

A paulada-mor do Raulzito, sempre presente onde quer que se fale dele. Raul resolve colocar em música os preceitos da Sociedade Alternativa, que já era divulgada há tempos: "Faz o que tu queres / Pois é tudo da Lei".

"O Trem das 7" (Raul)

Numa faixa mais triunfal e esperançosa, Raul fala sobre a passagem da humanidade para uma nova era, um novo aeon. Para ele a Sociedade Alternativa era um degrau para chegar nesse estágio. Outra interpretação, mais religiosa, liga essa música simplesmente ao Apocalipse cristão.

"S.O.S." (Raul)

Nesta baladinha, Raul traz conceitos do espiritismo, segundo o qual existem civilizações superiores, onde apenas espíritos mais evoluídos têm acesso. Porém, nesta nossa civilização existem apenas pessoas muito apegadas a valores materiais, e ele como "vetor" (ou transmissor, arauto das boas novas, subentendendo-se originário de uma dessas civilizações superiores), tenta alterar o rumo das coisas, mas se vê impotente para isso. Então pede ao "disco voador" para levá-lo embora para um lugar melhor.

"Prelúdio" (Raul)

Faixa curtinha, com letra mais ainda. Onírica, delicada, sensível e absolutamente linda. A frase é atribuída a John Lennon, e carregada do significado de toda a geração hippie, do sonho de viver em comunidades tranquilas, onde todos se ajudam mutuamente. O "sonho" em questão, num sentido amplo, é o futuro da humanidade. Mas ao mesmo tempo, é um convite para a Sociedade Alternativa, afinal com a participação de todos ele viraria "realidade".

"Loteria da Babilônia" (Raul / Paulo)

A Babilônia citada não é a civilização antiga que vimos na escola, mas sim a nossa civilização capitalista-judaico-cristã-ocidental, no mesmo sentido dado pelo movimento Rastafari (em oposição ao Sião, a terra prometida, identificada com a África). Nessa Babilônia, vivemos uma loteria em busca da realização profissional, pessoal, financeira, amorosa etc. Mais uma vez Raul fala sobre a pequenez de reduzir a vida ao eterno acúmulo, seja material ou intelectual : "Você tem as respostas das perguntas / Resolveu as equações que não sabia / E já não tem mais nada / O que fazer a não ser / Verdades e verdades / Mais verdades e verdades / Para me dizer / A declarar!"

"Gita" (Raul / Paulo)

Numa entrevista, perguntaram a Raul porque esta música fez tanto sucesso, e ele respondeu: "Porque fala de Deus em uma linguagem que todo mundo entende". Ele coloca um trecho do Bhagavad-Gita numa forma simples e clara, explicando a onipresença de Deus, desde "a luz das estrelas" até coisas pequenas e mesmo negativas, como "as juras de maldição".

Mais infos sobre o disco, aqui. E quem não encontrar nas boas casas do ramo pode quebrar o galho no Youtube:



E é isso! No próximo post vamos continuar a sägä com "Novo Aeon", que não repetiu o sucesso de "Gita". Até lá!


10 comentários:

  1. Genial!! O cara era foda...
    Mas, uma coisa que me intriga muito, desde que comecei a pesquisar mais sobre a vida dele, é sobre a sua religiosidade (ou falta dela...). Por vezes me parece ateu, noutras pregador... Aí eu sinto o quanto ele realmente se permitia ser uma metamorfose ambulante, rs.

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    1. Não diria que ele tinha religiosidade Ju, não essa babaquice católica-evangélica que existe hoje. Ele tinha, isso sim, espiritualidade: o deus dele não era um barbudo vingativo, vestido de branco e flutuando no céu. O "deus" dele era o ser humano, com todas as suas capacidades.

      E ele fazia questão de jogar essa verdade no ventilador, pra quem quisesse ouvir! Nesse sentido ele era bem pregador sim, tanto (ou mais) que os Valdomiros da vida... e com certeza muito mais honesto.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Então, é nesse ponto que mora a questão... Em Gita isso fica bem implícito! Mas, no baú do Raul, por exemplo, às vezes ele fala de Deus com descrença, depois como um ser específico... Acho que como pessoa ele era meio confuso, sei lá... Mas como compositor ele se posicionou lindamente nessa música, e é isso que importa pra obra! rs.

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  4. Adoro esse disco. Um marco histórico, com certeza. Pra mim, só perde pro "Novo Aeon". ;-)

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  5. Na boa, pra mim Raul tá e falando da Mulher (no sentido em geral mesmo, não da mulher dele) e de sexo em Água Viva.
    Vejo como uma ode ao gênero feminino, seus mistérios, encantamentos e sua capacidade de gerar a vida.
    "Eu conheço bem a fonte / Que desce aquele monte / Ainda que seja de noite / / Nessa fonte está escondida / O segredo dessa vida"

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    1. Assim... eu percebo que em muitas músicas o Raul fala da noite, da lua, e em geral como metáfora para a mulher.
      Podemos ver isso em "Nuit", "Lua bonita", "Segredo da luz", "Água viva" (ainda que seja de noite), e, principalmente, em "Lua Cheia".

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