segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Nei Lisboa 4: "Hein?!", 1988

E aeee galera! Belezinha? Bom, sei que to devendo esse post já faz bastante tempo, mas a vida às vezes toma nosso tempo de um jeito imprevisível, difícil de fugir. Mas enfim, vamos falar de Nei Lisboa que é mais interessante. rs

“Hein?!”, de 1988, é o quarto disco do Nei, também gravado pela EMI, logo depois de “Carecas...”. Foi seu segundo e último disco produzido por uma grande gravadora, porque no mesmo ano eles encerram o contrato. Foi um ano difícil pro cara. Sofreu um acidente grave de carro, e apesar de ter sobrevivido, perdeu sua então companheira, a Leila. Essa fase difícil da vida dele está bem retratada no disco, bem mais ‘deprê’ que os anteriores, mas não menos genial. O disco foi produzido por Mayrton Bahia.


É um disco bem mais cru, onde predominam os instrumentos mais típicos do rock. Junto com Nei estavam Renato Mujeiko no baixo, Pedro Tagliani na guitarra e Fernando Paiva na bateria (agradeço ao próprio Renato Mujeiko e ao Ciro Moreau pelas correções). Os teclados e timbres eletrônicos praticamente somem. O som tem mais pegada, claro, e me parece que nesse momento Nei deveria estar compondo mais na guitarra e no violão. As letras já são bem mais viscerais, às vezes usando palavras fortes, sendo sarcástico, crítico, se mostrando solitário, nostálgico, romântico e até, minimamente, bem-humorado. Mas no geral, parecem faces de um mesmo vago sentimento, digamos assim, Punk/Budista, uma melancolia de luta e sonho. Acho que o nome do disco e a capa em P/B traduzem bem essa idéia.

Essa faixa é um mistério pra mim, encontrei uma letra bem maior do que é cantado no disco. Vai saber... Tema introdutório que “surge e some do nada”, em fade, que lembra um pouco o que os Beatles fizeram com algumas faixas de Abbey Road e Lei it Be. Com violão e voz bem suaves, Nei recita sua poesia “transcendental”.
  

A intro lembra alguma coisa pós-punk. O som segue com mais pegada, com um andamento bem mais rock’n’roll. A bateria é bem preenchida, o baixão come solto em riffs cheios de slaps com cara de funk, fusion, sei lá, e aquela guitarrinha com riffs bem peculiares. A dinâmica característica do Nei, cheia de pausas, crescimento e quedas, está presente nessa faixa. A letra? “Nem Deus não entendeu, nem eu”. Nem eu, hahaha! Mas já dá pra perceber um lance mais beatnik na poesia do Nei. “Eu sou alcoólatra, Anarquista, Estuprador, E escrevo poesia”.

A faixa título do disco é a minha preferida. Não só pela letra genial, mas principalmente pelo instrumental. Aquela pegada meio punk-funk da faixa anterior também surge aqui, mas com um tom bem mais rock’n’roll, o baixão continua violento, slap slap slap, sensacional. A banda que acompanha o Nei nesse disco é bem enérgica. Os riffs de guitarra são hipnotizantes. A letra é simplesmente genial. O jeito ágil que ele canta, como vai alternando a métrica. Ele fala de um tal "inimigo", e de como ele o confronta em diversos momentos, que mais parece um confronto consigo mesmo. "Um inimigo invisível que eu tinha,
Cabeça e cauda de dragão, os olhos do Alain Delon, De dia atrás de mim, De noite se escondia no porão"
.


Um tema um pouco mais suave, com o mesmo swing das faixas anteriores, uma coisa meio pop/soul, mas ainda sim cru, guitarra cheia de riffs, baixão “black” e bateria toda cheia de quebradas. O destaque aqui está nos riffs e solos da guitarra. Acho que a letra fala sobre chapar o coco, beber até cair. Talvez algo mais metafórico que isso, sei não. rs

A faixa romântica do disco. Tem uma letra muito interessante, ao mesmo que é sensível e lúdica, tem metáforas geniais sobre amor e sexo. “A vinte léguas da vovó, parei, Pra, descansar, Tirei meu chapeuzinho e tudo o mais, Olhei pra trás, E era um nariz gigante, Oh!, ou ao menos parecera ser”. A sonoridade aqui é bem mais pop. O violão mantém a harmonia principal, baixo e guitarra são bem mais suaves, mais harmônicos, mas não menos geniais e bem trabalhados. Ênfase na mudança de andamento do verso pro refrão.

Blusão sem tirar nem por. Começa com uma gaitinha marota e um violãozinho na base. A progressão é típica do gênero. Um som bem mais alegre e debochado que os anteriores, e talvez, um dos “menos tristes” do disco. A letra é bem divertida (uma das poucas), uma “faxineira fascinante” que só faz cagada. E o tal Mutuca que ele cita é aquele mesmo do “Carecas...”, lembram? Gênio do rock gaúcho. ;-)

Essa é linda, tem uma das letras mais geniais do disco. “Oh, mana, Eu quero é morrer, Bem velhinho, assim, sozinho, Ali, bebendo um vinho, E olhando a bunda de alguém.” Engraçado como ele imprime dramaticidade na música e ainda usa a palavra BUNDA. Gênio. De fato uma balada, extremamente pop, mas muito bonita, sensível. O Nei está extremamente mais visceral nesse disco, canta com verdadeira dor. A guitarra suave e harmoniosa realça esse clima, mais um baixo lacônico, bem marcado. O refrão quebra a tranquilidade, e vira um grito de desespero, mas não menos melancólico. Aqui um órgão bem discreto completa a harmonia.


Começa bem tranquila, violão e voz. Um piano vem pra realçar a harmonia, e então entra a banda toda, num andamento e harmonia que lembram aquelas canções de blues bem melancólicas. O som vai crescendo, junto com o tom dramático da letra, com vocal mais gritado, dolorido. Piano e guitarra se intercalam no solo. Curioso é que termina de forma bem “caótica”, desencontrada. Um verdadeiro grito de desilusão e solidão.

A letra é bem sacada, usa de forma ambígua a idéia de “sonho”, estar dormindo ou estar acordado. “Estamos sós num sonho, É só um sonho, Mas gela minha cara na janela, Vidrando os olhos no vazio”. O violão introduz uma baladinha levemente animada, que lembra um pouco a estrutura melódica e o andamento da country music americana (Nei continua diversificando). O refrão é bem mais animado, com um riff de guitarra brilhante, o andamento muda, fica mais enérgico.

Mais uma baladinha, agora mais simples, só violão e voz. A melodia da voz é linda, o refrão ainda mais maravilhoso. O cara continua sendo mestre em fazer mais com menos. A letra é um tanto acinzentada, uma visão bucólica da vida, fala sobre silêncio, desistência, loucura. É simplesmente linda. O refrão é o mais enigmático: “Eu tenho os olhos doidos, doidos, já vi, Meus olhos doidos, doidos, são doidos por ti”.

A última faixa do disco lembra mais o Nei dos albums anteriores. Piano bem forte, melodia mais rebuscada, mas sem sair da sonoridade pop que lhe é característica. Violão e baixo apenas complementam a harmonia. A sonoridade é bem positiva, o que também lembra seus trabalhos anteriores. Existem implícitas na letra uma espécie de nostalgia e uma estranha metafísica...

E assim termina o disco que foi lançado num ano trágico da vida do Nei. Preciso confessar que de início eu não gostava muito do "Hein?!", mas cada vez que eu ouço acho mais genial. Apesar de "carregado", o disco mantém uma coerência poética dentro da linha de trabalho dele. Depois de 88 ele ficou uns bons anos sem lançar nada, retirou-se. Foi voltar só cinco anos depois, com “Amém” (1993), aliás, outro nome sugestivo. Mas desse falaremos depois. Só pra lembrar que cada título de música é também um link pra letra. Valeu! Comentem aeeeee! \o/

Disco completo no YouTube:


5 comentários:

  1. A letra de Hein?! é muito foda mesmo! E esse baixo é sensacional!! XD

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  2. Esse disco é maravilhoso. "Faxineira é ótima. Mas gosto mesmo é de "Baladas" e de "A fábula".

    Mas a faixa título é um caso a parte. Perfeita. Completa.
    Fico curiosa quanto a letra:
    "Eles querem diversão e bolo / Eles querem tudo e mais um pouco
    Eles querem Krig Há Bandolo / E champaigne"

    Estaria Nei mencionando o grito do Tarzan, ou citando Raul??

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  3. Aliás, a seuqencia Baladas - Rima rica / frase feita é de chorar né.
    Acho lindo, profundo, visceral. Tem um que de angústia, um grito de desespero, uma melancolia poética.

    Tá. Parei

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  4. Oi, parabéns pelo blog. Excelentes posts. Sobre a música Teletransporte Nr4 tem o seguinte, ela foi composta em "homenagem" a namorada que faleceu no acidente. Se liga nesses versos (absolutamente geniais)

    "Me ofereceram Buda, Krishna, Cristo
    Um coração, um ombro, a mão
    Um visto pro Japão..."

    "Seria um lindo domingo
    Um grande desfile
    O último show
    Se houvesse um teletransporte
    Se fosse arte nas mãos de Deus"

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    Respostas
    1. Fábio! Obrigado pelo comentário. O blog anda meio parado agora, mas essa discografia eu ainda vou terminar. Sou super fã do Nei, e adoro esses versos também.

      Grande abraço!

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