quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Nei Lisboa 2: "Noves Fora", 1984

"Noves Fora" é o segundo disco de Nei Lisboa, lançado em 1984, pela gravadora gaúcha ACIT, um ano depois do primeiro. Aqui ele mantém a parceria com Augusto Licks (já em contato com o que seria a primeira formação dos Engenheiros do Havaí). Nesse ano também saiu o filme "Verdes Anos", em que algumas faixas do disco entraram (o última faixa tá na cara que entrou).


É uma obra harmonicamente bem mais complexa, com muito mais timbres (acústicos e eletrônicos), bem mais músicos envolvidos, e tudo mais. A poesia do Lisboa se mantém tão boa quanto em "Para viajar no cosmo...", letras inteligentes e lindas, com temas menos festivos que o anterior, mais sérios e filosóficos. A gravação também é de qualidade, dá pra ouvir tudo direitinho, uma delícia. Por pouco não é meu disco favorito. Aí vai a análise, faixa a faixa:

1. Mônica Tricomônica
A primeira faixa do disco é bem animada, um baixão comendo solto, no melhor estilo disco music, assim como a bateria bem marcada. Guitarra e piano bem suaves complementam a harmonia, mas o destaque está nos teclados (que aliás são geniais no disco todo). Além de um solo bacaníssimo de sax. O arranjo é todo do compositor/arranjador Nico Rezende, mestre dos sintetizadores (que também toca bateria eletrônica nessa faixa). A letra tem um tema bastante mórbido, que contrasta com o clima alegre do som. Fala basicamente de uma garota "devassa" que pegou uma DST: a tricomoníase. Há!

2. Sempre Pinta
Outra faixa bem animada, meio soul. Os metais aqui crescem muito, o que vai ser uma constante no disco todo, um pouco diferente do primeiro LP. O baixão continua bem marcadão, cheio de slaps, e um solinho de gaita no final deixa tudo mais bacana ainda. Tem uma letra bem positiva ("Pinta sempre um jeito de fugir Pinta sempre um jeito de se ter, Minuto a minuto, um novo colorido som"), bem otimista. AH! Esqueci de mencionar que o mestre da percussão, o Papete, toca tumbadora nessa faixa.

3. Noves Fora
Faixa título do disco, a primeira mais lentinha. Basicamente tecladinho bem suave e guitarra, só complementando a harmonia, um som bem pop, bem arranjado, com um solo de trombone (bem mais "romântico"). Uma letra bem no estilo "On the Road", fala sobre viajar, conhecer coisas novas, o mundo, lugares e povos, e é claro, sobre o Rio Grande do Sul. Noves Fora, além de ser regra matemática, também é uma expressão popular do tipo "tirando isso e aquilo, tá tudo bem", ou seja, "noves fora, tá tudo bem".

4. Melhor
Talvez a letra mais bonita e inteligente. Fala sobre ser diferente, fora do comum, usando a teoria musical como metáfora ("Sei que não quero ficar No dó-ré-mi", "Porque as dissonâncias me traduzem melhor"). O som é bem simples, mas também muito bonito, violão e voz bem suaves, riffs bem colocados de guitarra, todo um clima romântico (apesar de não se tratar exatamente de romance). Nei tá cantando muito nesse disco, impressionante.

5. Lomba do Sabão
Essa me faz lembrar alguma coisa da tia Rita Lee. Sonzinho com pegada latina, meio caribenha, mas que também tem dinâmica própria (típica do Nei), tem percussões bacanas e tempos bem quebrados. Papete volta pra tumbadora nessa faixa. Mesmo usando uma sonoridade popular, Nei consegue ser muito original nas melodias e harmonias. O piano se destaca na faixa toda. A letra é bem interessante, usando uma "narrativa" metafórica, Nei fala sobre o fazer artístico, a expressão livre, a inspiração. Já a Lomba do Sabão é (pelo menos hoje em dia) uma represa localizada entre Viamão e Porto Alegre.

6. Paisagem Campestre
O som mais simplista do LP. Um tipo de country music pop, com direito a violino "velho oeste" e tudo mais. Tem a letra bem óbvia, um cara que ama uma moça e ela se casa com um outro homem, rico, aliás. Um tema comum, tão comum que nem o Nei não deixou de lado. A letra é de Francisco Settineri. O melhor é o refrão: "Ah! Vidinha burra, Nunca mais subi na montanha", e o jeito "sofrido" que ele canta. Genial.

7. Abolerado Blues
Nem preciso dizer que é um blues, né? Meio jazzy (meio bolero?) com metais suaves e pianinho maroto. Quem canta com Nei nessa faixa é a Cida Moreira, a famosa "dama indigna" da MPB (mais maldita que famosa), talentosíssima cantora. Não decifrei a letra dessa, hahahaha! (fica aberto aí aos literatos me ajudarem nessa)

8. Capricho
Por pouco não é minha favorita do disco. Excelente arranjo, bateria eletrônico totalmente anos 80, baixão nervoso, sintetizadores predominantes, solo de sax e mucho más. Tem um climão bem soturno, lembrando bastante o som das bandas de gothic rock da época. E a letra também vai nessa linha, um tema noturno, boêmio, que fala da ferocidade do ser humano, suas loucuras e seu lado animal ("Sábado sim, sábado não, viro bicho"). Perfeita pra dançar na pista da balada, rs.

9.  Palavra
Essa sim é a minha favorita. Arrisco até a dizer que é minha favorita de toda a obra do Nei.  Tem um instrumental impecável, com piano, guitarra, sintetizadores, bateria e baixo muito bem encaixados e muito bem amarrados entre si. Sinceramente não sei discorrer sobre a estética do som, mas tem um clima bem épico, várias nuances de tempo, ritmo, pausas muito bem encaixadas, dissonâncias que se resolvem, enfim. Apaixonante. A letra então, nem se fala. Pura poesia. Pura mesmo, até porque (pra mim) faz pouco sentido lógico, mas dá uma impressão de ser uma reflexão sobre as próprias palavras. Metalinguagem de primeira. Adoro esse som. Adoro.

10. Verdes Anos
Um som extremamente nostálgico fecha o disco. Basicamente violão e voz, mais um sintetizador bem suave e riffs lindos da guitarra do Licks. A letra (também do Licks) é melancolia pura, nostalgia hippie, descobertas de adolescente: "Foi no meio do salão, Foi lá por 72, Que eu descobri a lei dos corpos".


É isso galera. Vocês podem conferir a ficha técnica (músicos faixa a faixa e arranjos faixa a faixa) aqui. O disco vocês podem ouvir na íntegra no vídeo abaixo. Beleza? Lembrando que cada título de música no post também é um link pras letras. O próximo post será sobre o terceiro disco do Nei (e enfim, o meu favorito), o "Carecas da Jamaica". Valeu!


3 comentários:

  1. Sem se esquecer que "Lomba" é como os gaúchos chamam o que chamamos de "Ladeira".
    Assim como temos a ladeira da memória, entre outras, eles têm as "lombas".
    A tal lomba do sabão pode ser uma ladeira conhecida por lá.

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  2. Cara, a primeira vez que ouvi falar de Nei Lisboa, foi da sua boca e da Lud. Eu deixei rolar um pouco dos CDS enquanto lia seus post's do cara... É realmente muito bom!! Pra quem (como eu) não conhecia... Vale a pena conferir!

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  3. Parabéns, ótimas análises!! Abraço

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