quarta-feira, 12 de março de 2014

Nei Lisboa 6: "Hi-Fi", 1998

Depois do "renascimento" musical do Nei e de todo aquele espírito latino de "Amém", de 1995, o compositor gaúcho retorna, cinco anos depois, com o disco "Hi-Fi", também gravado ao vivo, no mesmo Theatro São Pedro onde gravou o anterior. Apesar dessa semelhança esse novo disco, mais uma vez, é uma quebra de paradigmas na musicalidade do cara. Aqui ele deixa de lado seu lado compositor e ataca de intérprete em 100% do album. Exato, são todas faixas cover, interpretadas pelo próprio Nei no violão junto com o violão e a guitarra de Paulinho Supekovia, parceria que vem desde a fase "Hein?!" e se estende até hoje.


A capa do disco tem tudo a ver com a escolha de Nei pelo repertório. Durante um período de estadia na Califórnia, para estudar, o cara começou a ter contato com um violão de aço, encostado e esquecido num armário. O repertório ali eram de antigos folks e pop/rock americano e britânico (claro). A foto da capa é exatamente dessa época, tirada para o livro anual do colégio. E é exatamente isso que se encontra aqui, versões violão e voz pra clássicos gringos. Tudo com clima bem folkie mesmo, que o Nei demonstrou ser maravilhosamente capaz de reproduzir e reinventar, ao seu modo. Começamos com o faixa:

1. Everybody is Talking
A canção original do cantor e compositor americano Fred Neil, ganha sua versão a la Nei, com sua voz suave cantando para os pampas, sereno, tranquilo. O clima folkie está mantido nessa interpretação belíssima, acompanhado de um riff de guitarra muito delícia. Ouça aqui a original. A letra fala sobre alguém que não tá nem ai pra nada nem ninguém, apenas segue seu caminho, seja pra onde for, ou melhor, "goin' where the sun keeps shining".

2. Bennie & The Jets
Clássico do início da carreira do Elton John, sobre uma banda sensacional que vai agitar a garotada e "acabar com a velharia". No mesmo estilo, violãozinho suave e voz macia. Muito boa essa versão também, sintetizou bem a ideia da original com poucos recursos. Aliás, os Beastie Boys também tem uma versão pra essa música (valeu pela dica, Ludmila).

3. Summer Breeze
O mesmo clima sereno das faixas anteriores se repete aqui, com essa canção que fala basicamente sobre curtir o verão. "Summer breeze makes me feel fine, blowing trhought the Jasmin till my mind". Essa foi hit nos anos 70 e já foi regravada diversas vezes. Adoro essa música, e a versão do Nei está ótima. A original, da dupla Seals & Croft já é genial, mas essa com o violão e a voz do Lisboa tá demais. Por pouco não é minha favorita do disco. Vale conferir também a versão funky do The Isley Brothers e a versão dark do Type O Negative (mais uma dica da Ludmila, rs).

4. Norwegian Wood
Como não adorar essa música? Beatles é Beatles, né? E o Nei não deixa por menos, faz uma versão na mesma pegada que a original, violão bem marcado, uma batida deliciosa, no mesmo clima folkie. Aqui a cítara da original é transportada para o violão de Supekovia, num belo arranjo de violões. Será que Nei encontrou a mesma garota que Lennon e McCartney encontraram naquela casinha de madeira norueguesa?

5. Sometimes it Snows in April
Canção do Prince que estranhamente não encontrei com o próprio interpretando. Estranho. É bem triste, fala de um jovem Tracy que morreu durante uma guerra civil e de alguém que sente muito a sua falta. O Nei consegue passar muito bem essa mensagem na sua interpretação.

6. Fifity Ways to Leave you Lover
Uma música muito linda do Paul Simon (aquele mesmo do Simon & Garfunkel), grande compositor de clássicos do folk/rock. Uma garota dando conselhos de como deixar seu(a) amante, é basicamente isso que Nei canta com total elegância ironia. "Just slip out the back, Jack, Make a new Plan, Stan, You don't need to be coy, Roy". O mais interessante aqui é o arranjo de violões, levemente diferente do original, que me faz lembrar até a Road Trippin' do Red Hot Chilli Peppers.

7. I'm Having a Gay Time
Essa é bem obscura. Antes que você abra um sorriso malicioso, GAY aqui significa "feliz, alegre", mas com o passar do tempo perdeu esse significado. Faz sentido quando sabemos que a compositora, Alberta Hunter, foi sucesso nos anos 20 e 30. O mais curioso é que encontrei a música grafada como "I'm having a good time" (ouça aqui). Vai entender... O arranjo de violões aqui é muito massa, começa aqui uma série blues no disco.

8. That's Why God Made the Movies
Mais uma do Paul Simon. Acredito que seja a história do Menino Lobo, ou alguma referência a isso, talvez algo mais amplo, falando sobre o "fantástico e o trágico" do cinema. Mantém o mesmo clima blues da original, aqui com mais cara de raiz mesmo, mas com o mesma estrutura melódica.

9. Walking Away Blues
Essa faixa é demais. A canção é do Sonny Terry e do Ry Cooder, esse último que gravou toda a linha de violão e guitarra slide do filme Crossroads (1986), onde é dublado pelo ator Ralph Macchio, o mesmo da saga Karatê Kid. A letra é bem positiva, um blusão esperançoso, não importa o que aconteça "the sun will gonna shy on my backdoor someday". O jeitão de cantar do Nei tá demais, e a dobradinha nos vocais com o Paulinho também é genial.

10. Still... You Turn Me On
Um dos melhores arranjos de violão, sem dúvida. Um toque suave, dedilhar tranquilo, que contrasta com um refrão com mais pegada, furioso. A parte mais melódica é muito bonita e por pouco não é minha favorita do disco. Nei fez jus a canção original do Emerson, Lake & Palmer (do clássico disco Brain Salad Surgery), a adaptação pra violão e voz ficou sensacional. Adoro essa.

11. Cool Water
Bem curiosa essa aqui. A original é do cantor e compositor country Bob Nolan, canadense naturalizado americano, uma canção típica do gênero, que Nei (mais uma vez) adaptou muito bem, transformando em algo mais folk, com uma outra intenção poética. A letra é o mais interessante, dois caras perdidos no deserto, sem água, delirando. Até que um diabão aparace oferecendo "cool and clear water". Beber ou não beber?

12. Ventura Highway
Essa sim é minha favorita, simplesmente porque adoro essa música, desde a original do America, até as versões ao vivo, e essa pérola que o Nei Lisboa teve a capacidade de lapidar. O climão folk da original é mantida, numa versão mais simples porém com o vocal do cara né, que fica cada vez melhor. Nem tenho muito que dizer, só ouvindo mesmo. =D

13. I Shot the Sherif
Um reggaezinho maroto entra no fim do disco pra deixar tudo em paz. Aqui o gaúcho homenageia o jamaicano Bob Marley, uma das suas melhores músicas do cara (na minha nem tão humilde opinião). A pegada do violão é boa demais, bem dinâmica. A letra do Bob é genial, simboliza toda uma forma de opressão política e policial sobre o oprimido, o desprovido de defesa, o pobre.

14. Ruby Tuesday
E pra fechar, depois de Elton John, Beatles, Paul Simon, ELP, Bob Marley e tudo mais, nada melhor que acabar com Rolling Stones. Aqui Nei fecha brilhantemente o disco, com um uma canção de amor, suave, chorosa, linda. O arremate tá na guitarra slide do Supekóvia. Genial.

É isso, galera. Dessa vez o Nei atacou de intérprete. Fez isso maravilhosamente, aliás. Apesar de mais simplista, "Hi-Fi" tem um clima muito agradável, mantém uma boa dinâmica entre as faixas, consegue entreter com clássicos e canções menos conhecidas. Um repertório muito bem escolhido. No mais, é isso. O disco você pode ouvir a baixo, via YouTube. Lembrando que os títulos das faixas também são links pras letras. Valeu e até o próximo disco, "Cena Beatnik", de 2001. \o/


4 comentários:

  1. Nossa quantas citações minhas!!!!
    HAHAH. Adorei!

    Mas falando disco, é bem bacana mesmo. Músicas escolhidas a dedo com versões muito bem trabalhadas!

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  2. Ah, e Fifity Ways to Leave you Lover parece mesmo Road Trippin' !

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  3. sometimes snow in april é do disco parade de 1986

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    1. hey! Obrigado pela informação, Fabiano! Abraço

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