sábado, 8 de março de 2014

Especial Semana da Mulher - Baby Consuelo



Baby Consuelo / Baby do Brasil - Canceriana Telúrica (1981)

Olá pessoal, eu sou a Ludmila e estou aqui para fechar a semana de posts especiais em homenagem ao dia da mulher! Lembrando sempre que falar em dia da mulher, é falar com respeito de um histórico de lutas por igualdade de direitos.
Minha escolha sobre quem seria minha homenageada foi difícil. Mas, em algum momento, ela tornou-se óbvia para mim. Explico:
Sabe aquelas músicas ou artistas que você conhece lá na infância e que acabam adquirindo um significado especial pra você, e de alguma forma, você olha pra trás e percebe que sofreu uma grande influência deles (as) não apenas na sua formação de gosto ou preferência musical, mas também em questões comportamentais, ideológicas e até espirituais?
Pois é, eu poderia citar alguns (mas) aqui que tiveram essa importância pra mim. Raul é um. Rita Lee também. Sem falar nos Beatles, como grupo e cada um individualmente.
No entanto, quando fui buscar na minha memória e história pessoal algumas artistas que pudessem ter exercido essa influência na minha formação enquanto pessoa, enquanto mulher, mas que também tivessem alguma representatividade enquanto artista feminina, passei por diversos nomes, mas Baby do Brasil foi o que ficou.

Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade, Baby Consuelo, Baby do Brasil, ou simplesmente Baby é a personificação arquetípica da grande mãe. É ânima por excelência, expressa em sua maternidade, em sua sensualidade, em sua sabedoria, em sua busca pelo autoconhecimento. Mas também em sua constante quebra de paradigmas.
Sem o fatalismo de uma feminilidade passiva e de reprodutora, é mãe de 6 filhos. É uma mulher independente, guerreira, lutadora, uma artista talentosíssima e versátil. Fortemente espiritualizada, desprendida de quaisquer papéis e normas sociais impostas,  hoje em dia é pastora evangélica. Não vejo outro caminho que pudesse ser trilhado por ela.
 Comecei falando da minha infância, e assim justifico a escolha do álbum Canceriana Telúrica. Esse álbum me acompanhou durante a infância. Lembro-me de como gostava daquela imagem da capa e da contra capa, aquele colorido todo. E também do jeitão da baby, de cantar e de ser.
Eu a admirava, ela era linda ao mesmo tempo em que não era nada convencional. Ela não tinha nada do estereótipo de feminilidade que me era ensinado e já pesava, mesmo criança. Mas ainda assim ela era extremamente feminina. Suas atitudes contestadoras, aparência exótica, os cabelos coloridos, as roupas extravagantes, e a alegria transbordante naquele sorriso imenso de uma pureza quase infantil. Era a mulher que eu queria ser.
Mas depois eu cresci, e por muito tempo, nem me lembrava dela, nem ouvia mais suas músicas.
Mas um dia, alguns anos atrás, eu pintei o cabelo de roxo. Alguém, comentando o fato fez referência à Baby e suas cores de cabelo. Tudo voltou na minha memória. E também nessa época, os Novos Baianos voltaram, e eu pude vê-los na Virada Cultural. Então pude reacender minha admiração pela Baby, como mulher, como pessoa, como artista e sua obra desde os tempos dos novos Baianos, até hoje.

Infelizmente, não encontrei a ficha técnica do disco, nem tive oportunidade de ir procurar no vinil, mas soube pelo Wikipedia que vendeu 1.400 Milhões de cópias – o que não é pouco – e que Pepeu Gomes, seu marido e companheiro de Novos Baianos é o guitarrista.
O disco também conta com o sensacional José Roberto Martins Macedo, mais conhecido como Baixinho. Excelente percussionista, que já trabalhava com Baby e Pepeu desde os tempos dos Novos Baianos. Não à toa a percussão e a guitarra são a cara desse álbum.

A faixa que abre muito bem disco é uma maravilhosa composição de Jorge Ben Jor (que na época era só Jorge Ben):
 


Música maravilhosa! Aquela levada samba-rock do Jorge (e também dos novos baianos). Uma percussão bacaníssima, muito presente.
A letra é linda, e me emociona ainda hoje... Como ficar indiferente à dizimação que ocorreu e ainda ocorre dos nossos povos nativos?
“Antes que o homem aqui chegasse / as Terras Brasileiras eram habitadas e amadas / por mais de 3 milhões de índios / Proprietários felizes Da Terra Brasilis / Pois todo dia era dia de índio / Mas agora eles só tem / O dia 19 de Abril”
 

2-Paz e amor (03:59)
Composição de Baby, Pepeu e tabém de Didi Gomes, baixista irmão de Pepeu.
Levada bem anos 80 com a cara do Brasil pós-tropicalista. Sintetizador e Percussão dando a cara.

Letra bastante espiritualizada, O tema neo-hippie Paz e amor parece celebrar um Brasil “Pós Ditadura”, com muita esperança no futuro, como que acreditando numa criança que nasce. Solos deliciosos do Pepeu, cheio de virtuosismo, sem ser chato.



3-Telúrica (04:22) 

Letra de Baby e Jorginho Gomes, outro irmão de Pepeu, excelente baterista.

Um reaggaezinho swingado, com aquela guitarra cheia de efeito do Pepeu, dando um “peso”, mas sem exagero. Na medida. Bastante percussiva, a voz suave de Baby no pré refrão convida a uma reflexão

“Não aceito preconceito / Para ser telúrica.”
Tá e você aí se perguntando “mas que raios é telúrica”?
Pois é, pode procurar no dicionário: telúrico é aquilo que se é da, ou refere à Terra. Assim, baby, reafirma-se como canceriana, do elemento Terra, e homenageia sua condição mulher, afinal, somos filhos de Gaia a grande mãe.


Composição de Pepeu e Charles Negrita, também percussionista, que também já tocou com os Novos Baianos.
Sincretismo religioso é o que há. E é o que podemos identificar desde sempre na obra de Baby: a multidimensionalidade do místico, da espiritualidade, da reverência às manifestações divinas. Sejam Krishna, Buda, Xangô, Jesus Cristo.
Aqui, a força do candomblé é vem com tudo.
E a percussão? que dizer? Fantástica.
Uma ode à
LogunEdé, orixá filho de Oxum e Oxóssi


Composição de Baby
Baladinha, para corações apaixonados. Mas ainda com aquela certa inocência infantil, que surge na suavidade e doçura da voz de baby, quase sussurrada.
É tipo um bolero, tem uma pegada meio latina principalmente na percussão muito marcante.
Mas também tem a cara dos anos 80, com a presença de um sintetizador dando toda uma ambiência ao som. Bom fechar os olhos e viajar.

6-Canceriana (04:41)
Outra composição de Baby.
Sintetizadores com cara de “som espacial”, numa pegada samba-rock, pra falar de temas místicos, signos do zodíaco, espiritualidade. Nada mais brasileiro, psicodélico e pós-tropicalista.

7-Juventude (05:04)
Composição de Pepeu e Baby.
Um riff de guitarra, uma pegada mais “rock n’ roll” pra falar de juventude. Nada mais clichê. Se não fosse a percussão lá, dando as caras e numa batucada tipicamente brasileira, enquanto a guitarra de Pepeu segue moendo no solo.
Letra bacaníssima, um elogio à juventude.
"Navegar até a ilha / Mas enquanto não chegar / Vencer as ondas dessa vida /Que o tempo não pode esperar"






Composição de Pepeu, Baby e  Galvão, outro ex-companheiro dos Novos Baianos.

E essa canção então? Uma delícia de música para fechar o álbum com chave de ouro.

Começa com um toque de Umbanda (talvez seja isso, pois reconheço meu total desconhecimento nessa área, infelizmente)
E segue nessa mesma batida, mas introduzindo a guitarra e todos os outros instrumentos lá em cima, para dar vivas aos Reis Nagô, aos orixá e à Bahia de São Salvador.
Tem uma pausa linda lá no meio, preenchida por um teclado que passeia.
Ouvi com fones de ouvido e nitidamente percebi que ele vai rapidamente de um canal pra outro e volta (ou seja, passa do lado direito para o lado esquerdo, e volta). Puta sacada. Preenche de um jeito incrível.

 
Enfim, esse álbum é uma obra completa, muito bem trabalhada, muito rica em sonoridades e harmonias.
É a Baby (ainda Consuelo) no auge de sua carreira solo, mostrando-se uma cantora madura, uma compositora talentosa, uma artista completa.
 

Não encontrei o álbum todo para ouvir no youtube, infelizmente. Mas, consegui baixar por aqui.

Um comentário:

  1. legal, acho que nunca tinha parado pra ouvir um disco da Baby fora dos Novos Baianos... XP

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