segunda-feira, 18 de agosto de 2014

NIRVANA IV – In Utero (1993)


Até algum tempo atrás, não conseguia ter uma opinião fechada sobre o In Utero. E por isso foi tão difícil escrever esse post. Às vezes amava o álbum, às vezes odiava.
Em alguns momentos pensava que parecia uma tentativa de repetir a fórmula de sucesso do Nevermind. Ficava identificando músicas muito parecidas. Às vezes achava tudo muito genial e incrivelmente inovador.
Mas no fundo, é isso mesmo. É necessário tempo pra entender o disco e saber apreciá-lo. Agora, parando para ouvir com mais atenção e buscando conhecer sua história, passei a gostar muito, muito mais. Porque ele provoca essa contradição, mesmo: uma sensação de conforto de estar num lugar conhecido, mas ao mesmo tempo, terrível um estranhamento, e, consequentemente, um deslumbramento.
Bem, há muitas histórias interessantes que circundam a gravação do disco, desde a escolha a dedo do produtor, Steve Albini, e o posterior rompimento com ele, sendo que o álbum acabou sendo finalizado por outro produtor, o Scott Litt, até a mudança do nome da canção Rape me, para "Waif Me", apenas na contracapa do CD, como estratégia para que o álbum pudesse ser vendido em redes como o Wall mart (!).
Mas, como está tudo lá no wikipedia, não cabe ficar repetindo aqui.

O ponto que acho mais interessante, e que admiro, é que Kurt mais uma vez, tem o crédito pela direção de arte, fotografia e desenho. A contracapa controversa (foto de uma colagem utilizando modelos anatômicos de corpo humano, principalmente de bebês e fetos) é uma genial obra de Kurt, que acabou quase não aparecendo, porque muita gente achou ofensivo, e que as pessoas não iam se chocar, etc...

Ah, e vale observar também que "praticamente cada canção contém alguma menção a enfermidades” o que demonstra bem o estado de espírito de Kurt na época, já que, novamente, todas foram compostas por ele. Apenas "Gallons of Rubbing Alcohol Flow Through the Strip” e “Scentless Apprentice" são creditadas à banda toda.
Bom, vamos às canções:

01 - Serve the Servants - 3:36
Começa até que tranquilo. Uma música com uma pegada mais “pop”, do tipo que dá pra tocar nas FMs e tal...
A letra é autobiográfica, direta e sem grandes metáforas. Kurt fala de seu pai, do divórcio de seus pais, do momento que estava vivendo (Teenage angst has paid off well/Now I'm bored and old - Angústia adolescente pagou muito bem/Agora estou entediado e velho).
Mas o melhor é a referência à sua esposa, Courtney. Em resposta à todas as críticas que ela vinha recebendo, por não ser boa mãe etc, etc, Kurt simplesemnte menciona o episódio conhecido como as Bruxas de Salem, em que mulheres foram acusadas e julgadas injustamente por praticarem bruxaria, nos EUA lá por 1692.Inclusive, menciona um dos incríveis métodos tão dotados de “lógica” que envolve o julgamento de uma bruxa, ou seja, verificar se ela afunda ou não quando jogada no rio.
É tão genial que tem uma clássica cena de Monty Python e o Cálice Sagrado, que ilustra toda essa lógica. É sensacional, se nunca viu, veja, se já viu, viu, relembre.

02 - Scentless Apprentice - 3:47
Essa já chega mais pesada. Vocal rasgado no máximo, bastante distorção. Sem riffs grudentos, ou refrão “pra cantar junto”.
Gosto muito. Tem muita raiva. É barulhenta, mas, bem trabalhada. Tem uma dinâmica própria, tem vários elementos que crescem com ela.
Lembro sempre daquele show no Hollywood Rock, (que já citei aqui) em que a música foi estendida, enquanto o Kurt pirava, a galera fica “segurando”, como era característico da banda. Mas dessa vez ele foi além, cuspiu nas câmeras, se jogou nos amplificadores e extrapolou os limites da distorção e desafinação. Deixou seu recado e marcou seu nome para sempre na história do rock. Resultado: uns 10 minutos de muita loucura! É inacreditável o que apenas 3 caras conseguem fazer num palco!
Quer ver só esse trecho? Recomendo muito.Bem, a letra é inspirada num livro chamado O Perfume.

03 - Heart-Shaped Box - 4:41
É a “lentinha” do álbum. Aquele comecinho tranquilo pra agradar todo mundo, mas aí vem a explosão, e o grito de inconformismo.
“Hey! / wait!/ I got a new complaint!”
É a uma música mais fácil, mais digerível. Mais pop pra tocar na rádio. Nem por isso deixa de bem elaborada, e muito bem produzida. O riff da guitarra limpo sobre a linha de baixo, contínua, cria um contraste muito bom, até que a música explode e a distorção reaparece.
Descobri que a guitarra solo é do produtor, Steve Albini. O clipe é sensacional. Tem uma estética muito bacana, mas o clima é bem tenso. Mas não tem como, sempre lembro daquele episódio do Beavis and Butt Head comentando. Mto bom! rsrsrss

04 - Rape Me - 2:49
Começa mais crua, só com a guitarra e voz, e cresce de repente, entrando os outros instrumentos. e Termina caótica, gritada, desesperada.
É impressionante como eles acabam elevando ao máximo a capacidade de criar músicas agradáveis aos ouvidos, e com uma mensagem e um conteúdo tão pesado.
E mai uma vez, um monte de gente cantou essa música “singela”, sem nem sequer suspeitar que ela tratava do tema estupro.
Crítica. Crua. Necessária.

05 - Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle - 4:09
Incrível. Boa demais. Direta. Tem uma microfonia ali no começo que não se sabe se é proposital, ou acidental, mas parece fazer sentido.
Adoro aquele barulhinho de xilofone (acho que é) que acontece (aos 3 min) apenas uma vez na música, mas tá um toque todo especial. Já reparou? Fico sempre esperando ele acontecer de novo, mas nunca acontece...
Bem, a tal Frances Farmer foi uma atriz de cinema, famosa na década de 30. Ela era de Seattle e teve uma história intensa, tendo passado inclusive por um internação forçada em clínica para doentes mentais. Kurt leu sua biografia no colegial e ficou fascinado por Frances e sua vida loka. Não à toa a filha dele se chama Frances...
Bem, nada mais legal que imaginar a revanche da Frances, em Seattle... “I miss the comfort in being sad”

06 – Dumb - 2:32
Melancolia, essa é sua trilha sonora.
É uma canção muito bem trabalhada em suas harmonias, é rebuscada, completa. E muito, mas muito, melancólica. Os backings vocals (do próprio Kurt?) são lindos.
O violoncelos de Kera Schaley contribuem muito para o clima.
But I'm having fun / I think I'm dumb / maybe just happy

07 - Very Ape - 1:55
Mais nervosa, mas com riff grudento que lembra uma sirene. Seria um alertando para o perigo... ou uma sirene de investigação, de busca? e quealquer forma, melhor se esconder.
A letra é uma crítica ao típico “macho alfa”, o famoso "machão". Very ape!

08 - Milk It - 3:54
Sensacional!! Distorcida, desafinada, dissonante, e... incrível...
Acho demais, mesmo. Tem umas notas que não encaixam, mas parecem ter um significado e fazem toda a diferença.
Uma letra profética, talvez?
"Look on the bright side is suicide / Lost eyesight I'm on your side"

09 - Pennyroyal Tea - 3:37
Também é bastante melancólica, mas tem um toque de raiva.
O tal "cházinho" Pennyroyal é uma referência ao chá de Mentha pulegium, ou o poejo, também conhecido como abortivo. Numa de suas notas perdidas, Kurt havia escrito uma observação que dizia algo do tipo "abortivo, mas não funciona, seu hippie".

10 - Radio FriendlyUnit Shifter - 4:51
Começa muito, muito ruidosa. Novamente há microfonia, ruídos, etc...Mas é sensacional.
Interessante esse título, para uma música nada "radio frindly" (ou não muito amiga das rádios).
Talvez uma auto-cítica as suaa propria canção "amiguinha-das-rádios", a famosa Smells like teen spirit.A canção foi usada para abrir quase todos os concertos do Nirvana na turnê de In Utero.

11 - Tourette's - 1:35
Desesperada. gritada, rápida e curta. Punk Rock, com riff de surf music distorcido.
Cada vez que Kurt cantava ao vivo, a letra era diferente. Mas também não faz diferença, ninguém nunca entendeu letra mesmo.
Ah, vale lembrar, que Tourette é o nome de uma síndrome, ou, um transtorno psiquiátrico.


12 - All Apologies - 3:50
Tranquila, melancólica. Parece feita pra tocar na rádio.
Mais uma vez o violoncelo de Kera Schaley dá o clima.
Kurt Cobain dedicou "All Apologies" à sua esposa Courtney Love e sua filha Frances Bean, mais pelo clima "pacífico, feliz e confortável" da música, que pela letra.
Me parece que a letra fala de alguém que vive pedindo desculpas por tudo, que acha que tudo é culpa dele(a) e que todo mundo é feliz, só essa pessoa não.
Um modo triste de se viver.

13 - Gallons of Rubbing Alcohol Flow Through the Strip - 7:33
Essa faixa aparece apenas em algumas versões não americanas do álbum. E não aparec e como uma faixa, mas sim, surge uns 20 minutos depois de All Apologies, como se fossem a mesma faixa.
Uma piração. A música mais longa da banda já lançada. Sete minutos e meio de improviso.
Me lembra muito o the doors, aquelas versões super estendidas de suas músicas ao vivo, inclusive quando o Jim Morrison ficava apenas falando ou declamando algo, em cima de uma base. É mais ou menos isso que acontece em algum momento da música.
Curiosidade: a música foi gravada no Rio de Janeiro, nos estúdios da BMG, durante a passagem da banda pelo Brasil, no Hollywood Rock em janeiro de 1993.



Bom, é isso.
Curtam o álbum completo aqui, e em breve volto para finalizar a discografia desse super trio!












2 comentários:

  1. Mano, quanta informação foda vc achou, genial. Essa contracapa é muito foda!!!! Eu nem fazia ideia da existência desse disco, um tempo atrás. É coisa de gênio mesmo.

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