quinta-feira, 3 de abril de 2014

Raul Seixas 10 - Mata Virgem (1979)

Oi, eu sou o Salinas! Depois do sucesso relativo do último disco, Raul começa a ser importunado por um novo inimigo, que o acompanharia até o fim da vida e viria a matá-lo: a pancreatite. Os maus hábitos e a bebedeira começavam a cobrar seu preço, e ele resolveu ir pro interior da Bahia se tratar. Lá conheceu Tânia Menna Barreto, que passou a ser sua companheira e participa em algumas letras.

Outro que voltou foi o Paulo Coelho. Depois de alguns desentendimentos, eles resolveram tentar mais uma vez, mas acabou sendo a última. Eles seguiriam por fim cada um seu caminho.

Esse disco de fato é diferente dos outros. Praticamente não há rock, embora as costumeiras críticas à ditadura continuam. Raul claramente está influenciado pela situação, que não é crítica (ainda) mas inspira cuidados. Toda aquela carga filosófica sobre a finitude da vida ganha um novo contorno para ele, agora que vê a morte mais de perto. Raul chega a pensar que esse será seu último disco. Isso fica muito claro na última faixa, que traz um simbolismo de conclusão do raciocínio depois de tanto pensar em torno de um problema. Ele aproveita até pra dar um último tapinha nos charlatães, ~doutores~ da ciência e sabes-tudo em geral!

"Judas" (Raul / Paulo)

Uma das faixas mais agressivas de Raul, aqui ele comprou briga não com os militares, mas com os religiosos. Entra com o pé no peito, percussão comendo solta numa pegada meio discoteca 70's, se colocando no lugar de Judas. Argumenta que, se não fosse por ele, seu mestre teria sido apenas mais um, e talvez o Cristianismo não conseguiria a influência que veio a ter. Mas claro que tem uma leitura política... quando ele fala "lá em cima, lá na beira da piscina" não está falando do Céu cristão, e sim de Brasília! E as tais "escrituras" feitas lá das alturas seriam as leis, que eles impunham (impõem?) goela abaixo do povo "e não me perguntam se é pouco ou demais".

"As Profecias" (Raul / Paulo)

Começa muito lenta, só voz e um pianinho bem discreto, caindo num forró lento. Raul olha para a "chuva caindo na vidraça, num dia de maio ou abril", e pensa nas profecias sobre o fim do mundo. Talvez ele tenha dito de propósito "maio ou abril", assim ao contrário, para ocultar a crítica, mas em termos de métrica poderia muito bem ser "março ou abril". E nesse caso seria uma referência clara (ou nem tanto) ao golpe de 1964, chute inicial da ditadura (com biqueira de aço e ponta afiada), que aconteceu entre os dias 31 de março e 1 de abril. E nesse caso as profecias sobre o fim do mundo não seriam senão sobre o fim da ditadura, claro, como já diziam os "loucos que escrevem no muro".

"Tá na Hora" (Raul / Paulo)

Uma pegada de música infantil, quase só com acordes maiores, percussãozinha marota. Muito comédia aquela cuíca lá no fundinho. Já na época o "senso comum" era buscar a vida pronta, empacotada, industrializada, nos produtos e aparelhos mirabolantes da ciência que transformam a experiência da vida em um ~filme~. Até que um dia chega a velhice, e só então a pessoa se dá conta que passou sua vida inteira e sem nunca ter sido livre. Raul já tá achando que "tá na hora" dele, veja você...

"Planos de Papel" (Raul)

No começo parece até que Raul está mais uma vez criticando o consumismo dos nossos tempos, quando "passa 7 dias úteis traçando 9 dias fúteis", mas o tom aqui é mais pesado... estaria Raul pensando em suicídio? Ou percebeu que já estava fazendo isso, aos poucos? "no contratempo do meu leito / Guardo um punhal cravado ao peito". A depressão também aparece, em "o que me importa nesse instante / É esse não me importar constante / Esse sorriso que eu guardei / Nessa gaveta a qual fechei / Pra mim dormir".

"Conserve Seu Medo" (Raul / Paulo)

Batera já na entrada pra acordar a galera! Confirmando a faixa anterior, Raul tá percebendo a temeridade de seus excessos. E dá um conselho pros amigos: sim, vá em frente, aproveite a vida, mas "cuidado, muito cuidado!" Destaque no finalzinho ele fechando com uma virada, não de bateria, mas de beatbox: "Prácuco-prácuco-prácuco-cum... vurum, vrum!"

"Negócio É" (Cláudio Roberto - Eduardo Brasil)

Mas também não é pra tanto... neste baião ele põe um contraponto ao fatalismo das duas faixas anteriores. Como diz o meu vô, no contexto futebolístico mas valendo pra vida: "Tem é que ir pro pau memo... jogar pra ganhar!" Sem medos, sem reservas, sem se esconder na segurança das caparaças, enfrentar o futuro de peito aberto e coragem, sempre! Ironicamente, a única faixa realmente "positiva" do disco é a única que ele não escreveu. Tá feia a coisa...

"Mata Virgem" (Raul / Tânia)

Ok, chega de tristeza e preocupação com o destino... agora Raul tá de namorada nova! A faixa é carregada de sentido sexual. Nos refrões, é Tânia quem fala, referindo-se à sua virgindade: "Qual flor de uma estação, botão fechando eu sou, / se amadurecendo pra se abrir pro meu amor". Em seguida é a vez do próprio Raul, descrevendo-a: "é capinzal noturno escudo denso o protetor / de um lago leve morno teu oásis seu amor".

"Pagando Brabo" (Raul / Tânia)

Raul e Tânia continuam seus marotos devaneios noturnos. A coisa tava boa na Bahia, ah se tava... (Mas a relação não durou muito: no ano seguinte eles se separaram.) Destaque para a guitarra de Pepeu Gomes.

"Magia de Amor" (Raul / Paulo)

De novo Raul pensando na finitude da vida. E num lampejo escapista, lembra a lenda do imortal Conde Drácula, e todo aquele mise-en-scéne do brilho dos olhos, a capa, o beijo, etc. O próprio Paulo Coelho mais tarde teria escrito um certo "Manual Prático do Vampirismo", mas ao que parece o livro era tão ruim que ele mesmo o tirou de circulação. (mas é só porque foi antes da série Crepúsculo: aí sim ele viu que no fundo do poço tinha um alçapão). Ainda bem (bem?) que temos a internet...

"Todo Mundo Explica" (Raul)

Enfim, depois de pensar tanto no amor, na vida e na morte, numa pegada meio big band, Raul chega à conclusão que, afinal de contas, pra que tudo isso? No fim é o que as filosofias e religiões já diziam há muito tempo, muito antes de Cristo ser traído: as coisas são, e pronto. Não há respostas porque não há perguntas. E não há perguntas porque não há respostas. Ele mesmo, não devia se importar tanto com a morte fisica, pois "Lá dentro, não do corpo, mas lá dentro-fora / No coração, no sol, no meu peito eu sinto (...) Que eu tô vivo, vivo, vivo como uma rocha", ou seja, ele tinha consciência de que seria lembrado, de que sua vigorosa marca no mundo já estava feita! E com isso aproveita pra dar um peteleco (o último?), usando a imagem de Sigmund Freud, o tal "Dr Don Sigismundo": não adianta sair lendo teoria, ou pior, vendendo a receita de bolo pronta, sem viver a vida na prática, como ele viveu! "Antes de ler o livro que o guru lhe deu você tem que escrever o seu!"

Mais infos sobre o disco, aqui. E quem não encontrar nas boas casas do ramo pode quebrar o galho no Youtube:



E é isso!

5 comentários:

  1. É um dos meus favoritos. Não sabia desse lance que o Raul tava achando q ia morrer... rs. Mas realmente, tem uma cara de "despedida" mesmo. Discasso. Mandou bem!

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  2. BOM demais esse disco!
    Judas é sensacional. Tá na hora tem uma das melhores letras de toda a carreira de Raul. E Pagando Brabo é deliciosa.

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  3. Ah, e uma ênfase numa das melhores frases (em Todo mundo explica):
    "Se eu aconteço aqui, se deve ao fato de eu simplesmente ser"

    Pois é, antes de ler o livro que o guru lhe deu você tem que escrever o seu. Você já foi ao espelho, nega? Então vá!

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  4. pra mim esse disco e muito bom de 9 musica da pra ouvi 8 e que nao e seu melhor ja pensou que fosse olha por rei de 12 da pra ouvir no maximo 2 forçada e sor repara ok

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  5. Quem nunca fez planos de papel?kk Me identifico muito nessa música.Grande Raul!!!

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