segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Bad Religion 8 - Generator (1992)

Nota: 9

Após ter varrido Estados Unidos e Europa na “Against The Grain Tour” nos primeiros meses de 1991, o Bad Religion finalmente estava se assumindo como “pai-criador” de um novo estilo de Punk Rock e de uma nova cena mundial, que se caracterizava principalmente por bandas que tocavam um som rápido e (muito) melódico.

E na condição de “leader not follower”, havia chegado a hora do Bad Religion dar um passo para além dos limites musicais que explorou profundamente em seus três discos anteriores, “Suffer” (1988), “No Control” (1989) e “Against The Grain” (1990), que inclusive já começavam a ser declaradamente (e descaradamente) copiados pela maioria das bandas punks da época. “Estava ficando chato”, disse o guitarrista Mr. Brett em entrevistas na época. “Era hora de mudar.”

Não que essas mudanças significassem algo tão drástico como eles fizeram no péssimo “Into The Unknown”, em 1983, mas eles decidiram deliberadamente, antes começar as gravações de seu 6º álbum de estúdio, dar uma “simplificada” no caldo, enxugar qualquer possível excesso e fazer um disco mais direto e, consequentemente, poderoso.

BR-92: Hetson (g), Bentley (b), Bobby (d), Brett (g) e Graffin (v)
A primeira mudança foi o método de gravação: com uma nova e maior locação para o seu estúdio Westbeach Recorders, Mr. Brett e os outros membros do BR puderam pela primeira vez tocar juntos na sala de gravação, optando por gravar o disco “ao vivo”, com todos tocando ao mesmo tempo, além de manterem Brett no comando da mesa de som, como engenheiro do álbum, e todos opinando na produção!

Encarte completo do K7 de Generator
A outra mudança foi no método de composição: em vez de ensaiarem e até mesmo testarem as músicas ao vivo antes de gravar (exceto por “Heaven is Falling”...), eles aprendiam as composições juntos no estúdio, por meio das demos trazidas por Brett e pelo vocalista Greg Graffin, por cerca de uma hora e logo já apertavam o ‘Rec.’, o que fez com que as versões registradas para a bolacha se tornassem as primeiras versões de cada música tocada pela banda! “Eu escutava o disco e dizia ‘porra, o que eu fiz nessa parte mesmo?’”, comentou o baixita Jay Bentley, na época, sobre o método que o levou a ter que ouvir seu próprio disco para aprender as músicas. “Mas eu realmente me diverti gravando esse disco.”

O resultado dos novos métodos de gravação, que levou apenas 10 dias para ser finalizada, em maio de 1991, ficou bem latente já no número de composições apresentadas: apenas 11 faixas em 30 minutos. Vitória! Já que ia na direção oposta dos 3 discos anteriores, que tinham entre 15 e 17 músicas cada, com aproximadamente o mesmo tempo de duração. E, ainda que isso signifique que as músicas novas ficaram um pouco mais longas, seus arranjos estavam, de fato, melhores e mais elaborados!

Contracapa do disco
Tudo estava lindo! O Bad Religion estava empolgadíssimo com seu novo disco, já acertando os detalhes do lançamento, quando as primeiras cópias que chegaram da fábrica ao escritório da gravadora Epitaph Records deixaram eles extremamente insatisfeitos com o material dos encartes e com a arte do pacote, em geral. Fazer tudo de novo era necessário, mas isso resultou em adiar o lançamento do disco para o próximo ano...

Para não perder a viagem (e o período de altas vendas de fim de ano), Mr. Brett (já falei que ele é dono da Epitaph, né? rs), muito esperto como sempre, acabou lançando a primeira coletânea do Bad Religion, simplesmente intitulada “80-85”. O disco, que chegou às lojas dia 12 de novembro de 1991, trazia na íntegra quase tudo que a banda lançou entre 1980 e 85: o primeiro EP autointitulado do BR lançado em 1981, o primeiro LP, How Could Hell Be Any Worse”, de 1982, o segundo EP “Back To The Known”, de 1985, e mais três versões de uma coletânea de 1980. Só o já citado disco de 1983, “Into The Unknown”, havia sido espertamente ignorado...

Escute a coletânea "80-85" logo abaixo:

E o atraso que poderia ter sido desastroso para o Bad Religion acabou jogando a favor, quando as encomendas de pré-venda de seu novo disco já haviam ultrapassado as pré-vendas dos discos anteriores. Só na Alemanha, 50 mil cópias já estavam previamente vendidas, tanto que a companhia de frete teve que alugar um avião exclusivo para levar a encomenda da Epitaph para lá, na época.

Arte completa do encarte do CD
E dez meses depois de gravado, “Generator”, 6º disco de estúdio do Bad Religion, foi finalmente lançado no dia 13 de março de 1992, pela Epitaph Records, já com 85 mil cópias vendidas em menos de um mês de comercialização, sendo o 2º disco do BR mais vendido até então, perdendo somente para “Against The Grain”, lançado dois anos antes (no Brasil, o play só foi lançado no fim dos Anos 90 pela Roadrunner Records).

A capa, até então responsável pelo atraso no lançamento, trazia apenas uma mão de uma estátua extraída de uma fotografia artística dos “The Douglas Brothers”, com o nome da banda e do disco escritos de maneira que formavam um arco e flecha. Nada tão legal quanto às artes apresentadas antes, mas uma amostra que a banda realmente estava tentando “algo diferente”, de fato.

Outra novidade que “Generator” trouxe, mas essa não-intencional, foi a adição do baterista Bobby Schayer ao time, no lugar de Pete Finestone. “Certamente a maior variedade de ritmos nas músicas novas se deve a ele”, declarou o baixista Jay Bentley na época sobre o novo membro. Finestone saiu do BR no início da tour do disco anterior, no comecinho de 1991, mas havia deixado gravado partes de bateria nas demos de duas músicas que acabaram em “Generator”: “Fertile Crescent” e “Heaven is Falling”, lançadas posteriormente em 2004, como bônus na edição re-masterizada do álbum.

Blusão oficial da "Generator Tour"
E “Generator” também ficou marcado por ser a pela primeira vez em que o BR não abria um disco com um “hardcore-voadora-com-os-dois-pés-no-peito”! Ao invés disso, eles entregaram logo de cara a belíssima e melódica faixa-título, um clássico absoluto da banda, tocado ao vivo até os dias de hoje (inclusive com uma nova introdução de tirar lágrimas!).

Composta por Mr. Brett na manjadíssima sequência de acordes “Am-F-C-G”, “Generator”, a música, contém as famosas partes de “música abstrata” já utilizadas pelo guitarrista anteriormente, mas elevadas a um patamar ainda mais experimental e livre: após os refrãos, cada membro toca literalmente o que quiser, gerando um curioso efeito de cacofonia, que logo é sobreposto pela melodia da música, tomando seu lugar de volta. Na letra, Brett também foi longe na “abstração”, simplesmente tecendo frases poéticas sem ligação entre si, tentando significar a “onipresença de Deus”, o “gerador” (“generator”, em Inglês”).

O hardcore de derrubar paredes ficou para a faixa 2, com a alta “Too Much to Ask”, composta pelo vocalista Greg Graffin, e que começa com uma introdução alegrinha, mas logo descamba ladeira abaixo a toda velocidade, com vários coros “oozin ahs”.

Letras no encarte do K7 (clique para ampliar)
Ela faz bem a ponte para outro clássico contido no disco: a contestadora e pessimista “No Direction”, também escrita pelo cantor, que utilizou acordes da escala menor para dar um clima tétrico à sua letra: “No Bad Religion song can make your life complete. Prepare for rejection you'll get no direction from me” (tradução: “Nenhuma música do BR pode fazer sua vida completa. Prepare-se para rejeição, você não vai obter nenhuma orientação de mim”). Era o recado de que “nenhum messias existe, pare de procurar” sendo dado de forma direta e sem as palavras científicas, outrora muito utilizadas pelo vocalista, que também é professor universitário. Nada poderia ser mais Bad Religion...

O disco segue com a punk-veloz “Tomorrow”, e logo em seguida cai na cadenciada “Two Babies in the Dark”, que discorre sobre os apuros da uma gravidez indesejada na adolescência. A música, que mostrou um lado musical mais obscuro, ou “dark”, do BR, foi inspirada na irmã adolescente de Brett, que engravidou na época, mas “ainda tinha medo de escuro” (!!!), segundo o guitarrista. A rápida “Heaven is Falling” vem em seguida e protestava contra a Guerra do Golfo, bem forte àquela época, encerrando o lado A do vinil.

O lado B abria com o 1º single do disco, a anti-nuclear “Atomic Garden”, que com seu riff de guitarra dobrado por um piano (!!!), acabou se tornando também o videoclipe do Bad Religion, em uma produção amadora e independente, filmada no galpão da própria Epitaph, pelo amigo da banda e diretor Gore Verbinsky (assista logo abaixo).


The Answer”, outra bem cadenciada, vem na sequência trazendo uma das letras mais contestadoras de Greg Graffin no BR, sobre a tão procurada “resposta” para as dúvidas de nossa existência (“Não me fale que você achou a resposta, pois logo vai aparecer outra pessoa dizendo a mesma coisa”), além de um “solo” de “oozin ahs” maravilhoso no final.

VHS Big Bang
Na reta final, temos as fillersFertile Crescent”, com seus versos entupidos de tanta palavra encaixada; a “tradicionalmente Bad Religion” “Chimaera”; e a altamente crítica aos telejornais da TV “Only Entertainment”, com sua levada surf, bem “californiana”, encerrando o CD com a vibe lá em cima!

Em geral, as 11 faixas de “Generator” deram um novo colorido à carreira e à discografia do Bad Religion, ampliando seu leque de opções na hora de compor, também provando que a banda sabia aparar as próprias arestas ao escolher fazer um disco com músicas mais simples e diretas.

Em 25 agosto de 1992, cerca de cinco meses depois do lançamento de “Generator”, o BR lançou seu 2º home vídeo, o VHS “Big Bang”, mas apenas na Europa (assista ele completo AQUI).  Assim como seu 1º VHS “Along The Way”, “Big Bang” foi produzido pela “Tribal Crew”, com imagens de 18 shows da “Against The Grain Tour 1991” no velho continente, totalizando 24 músicas ao vivo e algumas entrevistas, além do clipe de “Atomic Garden”. O lançamento antecedeu o sétimo trabalho de estúdio do BR, o disco “Recipe For Hate”, de 1993, que veremos na próxima resenha. Até lá!
 
Escute “Generator” logo abaixo:

*Bônus: versões demo de 8 músicas de “Generator” estão disponíveis no Youtube:

Clique sobre os títulos para ouvir:

- Inner Dream (não-lançada)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Bad Religion 7 - Against The Grain (1990)


Nota: 9,5
Capa de "Against The Grain"
Após os marcantes e geniais “Suffer” (1988) e “No Control” (1989), discos que definiram uma nova estética para o Punk Rock e, consequentemente, ajudaram a criar uma nova cena nos Estados Unidos (principalmente na ensolarada Califórnia), o Bad Religion chegou a 1990 contabilizando um saldo mais que positivo, em termos de popularidade para uma banda de Punk Rock independente que ainda não havia saído do Underground.

A fase estava tão boa, que eles voltaram de sua última tour na Europa, no primeiro semestre do ano, com seu primeiro VHS na mala: o único e espontâneo “Along The Way”. Fruto de um trabalho de estudantes de cinema que tinham uma produtora independente, a Tribal Area, “Along The Way” traz 28 músicas ao vivo, com áudio registrado de um show em Bremen (Alemanha), intercaladas por entrevistas com a banda, sendo a mais legal, uma com o guitarrista Mr. Brett falando abertamente sobre seu vício em crack!

Clique AQUI para assistir o "Along The Way" completo no Youtube

VHS "Along The Way"
A grande “curiosidade” do vídeo, que foi lançado pela Epitaph Records (já falei que a gravadora é do guitarrista Brett, né? rs) dia 25 de agosto de 1990, são as várias “trocas de roupa” dos integrantes durante as músicas. Não que eles estivessem numa vibe de Madonna, mas a galera da produção gravou e editou imagens de 14 shows (!!!) diferentes e se esqueceu de pedir para que os integrantes usassem as mesmas roupas... O resultado ficou próximo do cômico, como quando o vocalista Greg Graffin começa uma música com uma camiseta azul, canta o refrão sem camisa e volta para o segundo verso com uma blusa de frio vermelha... (rs)

Voltando um pouco no tempo, ainda antes do lançamento do VHS, logo que o Bad Religion chegou da tour na Europa, em maio de 1990, eles já tinham um bom punhado de novas canções e nem hesitaram em entrar novamente no estúdio Westbeach Recorders (também do guitarrista Brett...), em Hollywood, para registrá-las para seu próximo LP. E eles saíram de lá com uma bolacha de pouco mais de 34 minutos de Punk Rock rápido e ainda mais melódico, divididos em 17 músicas que iam direto ao ponto, sob o provocativo título “Against The Grain(“contra a moda”, numa tradução livre).

O famoso "milho" no encarte do CD

Against The Grain”, o 5º full length do Bad Religion, chegou às lojas no dia 23 de novembro do mesmo ano, via Epitaph Records (aqui no Brasil, ele só foi lançado no fim dos Anos 90, em CD, pela Roadrunner Records) e, apesar de ter sido o primeiro disco da banda a atingir a marca de 100 mil cópias vendidas e conter seu primeiro “protótipo” de hit, a pop pegajosa (e muito legal)21st Century (Digital Boy)”, acabou não sendo o trabalho que fez o BR estourar no mainstream.

A arte da capa, que caiu como uma luva para o título, pode ter colaborado um pouco para esse “insucesso” do disco, já que o desenho lindão da “lavoura de mísseis” da artista plástica Joy Aoki (responsável por capas de outras bandas da Epitaph na época, como Offspring, NOFX e Down By Law), apesar de se sustentar por si só pela mensagem contida, não trazia nem o logo da banda, nem o nome do play, nem nada mais, itens que, por mais que “estragassem” a arte, certamente aumentariam o apelo do marketing da bolacha na prateleira das lojas.

Encarte do K7, com as "fotos produzidas" dos integrantes (clique para ampliar)
Ainda dentro do contexto “contra a moda”, o encarte trouxe pela primeira vez os integrantes em fotos individuais, mas devidamente “produzidos”, como se estivessem prestes a entrar numa passarela para desfilar (!!!). Uma sacada espertíssima e muito corajosa para uma banda inserida na cena Punk...

Outra novidade contida em “ATG” foi a colaboração do baixista Jay Bentley e do guitarrista Greg Hetson na composição. Desde a volta da banda em 1987, apenas Greg Graffin e Mr. Brett se arriscavam na criação, mas desta vez o baixista trouxe duas músicas: o petardo hardcore de 57 segundos “The Positive Aspect of Negative Thinking” (que tem até uma batida “thrash metal” no final) e a contestadora “Unacceptable”, composta em parceria com Hetson. As duas músicas foram mixadas por Karat Faye, ao contrário do resto do disco, que acabou finalizado por Eddie Schreyer, engenheiro de som parceiro do guitarrista Brett no Westbeach Recorders.

Arte original de "Against The Grain" decorando o hall de entrada da Epitaph
E se em “No Control” Brett era o mais inspirado na hora de compor, em “ATG” Greg Graffin dischavou, trazendo 9 músicas contra 6 do guitarrista. “É sobre como você desafia as estruturas da Ciência e da Arte para fazer progresso”, comentou o cantor sobre o conteúdo lírico do álbum, em entrevistas na época do lançamento. De fato, o “doutor” estava realmente inspirado quando escreveu letras como as de “God Song”, “Faith Alone” e “Get Off”.

Assim como a capa, a contracapa não trazia informações
Musicalmente, “Against The Grain” também mostrou o Bad Religion evoluindo dentro do estilo melódico de Punk Rock que havia inventado e desenvolvido, com Brett, Hetson e Jay tecendo linhas diferentes um do outro na mesma musica pela primeira vez, como em “Anesthesia(surrupiada pelo Offpsring quatro anos mais tarde, na música "Genocide", do Smash), por exemplo, ao invés de simplesmente se acompanharem na mesma base, como ocorreu em praticamente todo material anterior da banda. Finalmente o BR estava utilizando as vantagens de ter duas guitarras no time!

Nas “drums and percussion(como creditado no encarte do album), apesar de ainda bem “retão”, Pete Finestone manteve a precisão e a pegada forte que sempre apresentou, neste disco que foi seu último nas baquetas do Bad Religion, encerrando um ciclo de 3 álbuns com a mesma formação na banda.

Vinil amarelo de "Against The Grain"
Como já havia virado uma tradição o BR abrir seus discos com uma cacetada, “ATG” começa com Greg Graffin mandando um “... here’s a song with attitude(mas o começo da frase foi cortado na edição do disco...), seguido de Finestone contando “1, 2, 3, 4” pra descer o sarrafo em “Modern Man”. A música, um hardcore de poucos acordes, muita melodia e muitos coros de Oozin Ahs (como eles sempre chamaram os backing vocals nos encartes), começa com um solo simples, porém marcante, de Bret e cai na brilhante letra contestadora de Graffin sobre o way of life destrutivo do homem moderno, a quem ele chama de “traidor da evolução”.

O lado A do vinil segue a mil por hora com as rapidíssimas hardcores “Turn On The Light(com um solo de baixo), “Get Off” (com um solo de oozin ahs”), “Blenderhead” e a já citada “The Positive Aspect of Negative Thinking”, até cair na interessante “Antesthesia”, composta por Brett.

Poster oficial da tour de "Against The Grain"
Além de clássica na discografia da banda, “Anesthesia” é um caso a parte, tanto pelo quesito musical, com linhas de guitarra espertíssimas e uma quebrada de tempo maneira no final com algumas percurssões, como pela fantástica letra, com 3 metáforas embutidas (!!!), que conta a historia de um casal, que ora você acha que se envolve com assassinato e suicídio, ora que eles estão apenas usando heroína, além de uma outra metáfora passeando entre essas duas, onde a “Anesthesia”, alem de ser o nome da garota, é uma gíria para a droga, já usada por Brett, que considerou a canção uma de suas favoritas na banda.

Ainda no lado A, o play segue com “Flat Earth Society”, também de Brett, famosa por seu refrão simplório “Lie, Lie, Lie...” e por sempre estar no set list dos shows, até terminar na cadenciada e também clássica “Faith Alone”, de Greg, onde o cantor fez o nome da banda fazer muito jus a sua mensagem, com uma letra desconcertante de tão sincera e contestadora.

Depois de chutar a porta de novo na abertura do lado B com a veloz “Entropy”, temos a faixa-título com sua base solada, algo pouquíssimo usual no Punk Rock, e sua letra autoafirmativa panfletária “I maintain against the grain”. O “sprint na descida” segue com a alta (em termos de tom) “Operation Rescue”, que conta com backing vocals do Keith Morris, famoso por integrar bandas como Black Flag, Circle Jerks e Off!, colada com a melodiosa “God Song”, onde Greg mais uma vez bate forte nas ditas religiões que fazem o fiel vender até a casa pra pagar o dízimo...

Cartaz do 1º show da tour, no México
Então, mesmo depois de te dar 12 bordoadas na orelha, o BR ainda te entrega o já citado hit “21st Century (Digital Boy)”, composta por Brett sobre a família-padrão norte americana: “Sou uma criança do século 21, não sei ler, mas tenho muitos brinquedos, meu pai é um intelectual desmotivado de classe média e minha mãe é lesada de Rivotril”. Um clássico incontestável do Bad Religion com todos os méritos!

E essa letra ainda veio embalada numa base cheia de groove, que sempre causa o maior pula-pula nos shows da banda até hoje. Era tanto potencial Pop, que, quando o BR assinou contrato com uma gravadora major, mais tarde em 1994, uma das cláusulas do contrato os obrigava a regravar essa música pra lançá-la novamente com um clipe e tudo mais, como aconteceu no disco “Stranger Than Fiction”!

E ATG entra na reta final com a correta “Misery and Famine”, seguida da já citada “Unacceptable” e da “pogativa” “Quality or Quantity”, com sua alternância de ritmo entre o Punk 77 e o puro HC, acabando de vez com “Walk Away”, cheia de oozin ahs”.
Bad Religion, no México, durante o 1º show da tour

O disco, mesmo contando algumas das letras mais ácidas do Bad Religion, tinha tanto potencial melódico e pop em suas veias, que o tecladista Roy Bittain, da The E Street Band, banda de apoio de Bruce Springsteen, apareceu um dia na Epitaph para conversar com Brett e Jay, oferecendo uma maleta cheia de dinheiro para que eles regravassem “Against The Grain” com ele na produção, dizendo que assim eles estourariam! Jay acabou “educadamente expulsando” o maluco da reunião, sem dar nenhuma resposta à absurda proposta, para logo depois cair na risada junto com Brett, mal acreditando no que havia acabado de acontecer...
Apesar de tantas músicas brilhantes, “Against The Grain” manteve a máquina do Bad Religion rodando bem graças à força do hit 21st Century (Digital Boy)”, que fez a banda deixar de apenas “dividir” o palco com seus colegas da cena Punk americana, para a se tornar a “atração principal” na maioria das noites da tour, que novamente contou com um giro pela Europa, além dos Estados Unidos e México, e durou até 1992, quando eles lançaram “Generator”, o próximo disco a ser resenhado. Até lá! :)

Escute “Against The Grain” logo abaixo:



* Bônus: versões demo de 7 músicas de “Against The Grain” estão disponíveis no Youtube! :D

Clique sobre os títulos para ouvir:

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Kiss 20 - Revenge (1992)

Oi, eu sou o Salinas! Em novembro de 1991, dois anos depois de Hot in the Shade, Eric Carr adoece gravemente, e morre de câncer no coração. A banda sente o baque, claro, mas o show não pode parar: Eric Singer assume o posto. Ele já conhecia o riscado, entrou como baterista substituto quando Carr começou a ter problemas, e com a morte deste, assumiu a persona de Catman. À revelia do agora distante Peter Criss, que não foi sequer cogitado.

Gene e Paul saíram por aí em busca de contribuições externas para o novo disco: Gene ficou atrás de Bob Dylan tentando escrever uma música com ele, mas não rolou. Acabou que o estranhíssimo Vinnie Vincent (que tinha tretado com eles na época do Lick It Up) resolveu voltar, arrependido e disposto a fazer as pazes. O espertalhão Gene topou botar uma pedra em cima do passado. Mas Vinnie quis ser mais espertalhão, tentando abocanhá-los no tapetão só porque escreveu aí duas ou três musiquinhas. Elas até foram para o disco, mas o que Vinnie ganhou, teve que gastar com advogados. Fora o desfavor eterno de Gene & Paul.

Já o "filho das estrelas" resolve chamar Bob Ezrin de novo. Gene não curtiu muito a ideia por causa da experiência com "Music from the Elder", mas é que ele já estava trabalhando com o Kiss por causa da "God Gave Rock'n Roll to You II", que eles estavam regravando para um filme (que virou cult por, entre outros motivos, ter no elenco um jovem Keanu Reeves), e na qual Eric Carr fez os vocais em "a cappella". Essa música acabou virando uma espécie de "testamento" do batera, e nem ia ser incluída no disco, mas com a morte dele, acharam por bem colocá-la como uma homenagem ao "Fox", junto com seu solo.

A impressão geral do disco deixa pra trás os espasmos da polêmica "fase glam"... só que não. Voltaram os personagens, mas as letras (tirando algumas honrosas exceções) continuam falando de mulheres e sexo, muito sexo. A sonoridade é que começou a mudar: as guitarras sujas, um cheiro de anos 90 chegando. Algumas faixas, e principalmente os solos, caindo para o grunge. É o Kiss tentando se reinventar mais uma vez, ao som das caixas registradoras e dos novos tempos.

"Unholy" (Gene, Vinnie Vincent)

O disco começa com mais uma batida lenta e arrastada, com um dos vocais mais graves e borbulhantes que já emanaram da goela do baixista e vocalista Chaim Witz. Depois de uma intro zumbindo e trazendo consigo  "o Senhor das Moscas", ele bota pra fora seu lado mais demoníaco, porém traz pro jogo outras referências religiosas/mitológicas/satanistas: o "reino de mil anos", "Incubus", "peste e fome", "mão esquerda" etc, todas "criadas pelo homem". Ou seja, no fundo é o judeu Gene dando seu recado sobre as religiões do mundo: aparecem só para sugar a energia de geral em vez de ajudar com alguma coisa. Solo matador bem grunjão, não deve nada pro que veio depois.

"Take It Off" (Paul, Bob Ezrin, Kane Roberts)

Com uma longa intro, que faz esta parecer a "verdadeira" primeira faixa do disco, Paul não está nem aí pra elucubrações religiosas. Tá dando "onze e meia" no relógio e ele quer é um pouco de "transpiração": no puteiro da esquina, descreve as loucuras que rolam quando a garota "tira tudo". Solo matador estranhamente sem cheiro de motel, e com essa distorção suja na guitarra, com muito mais cara de metal: Bruce não tá pra brincadeira!

"Tough Love" (Paul, Bruce Kulick, Ezrin)

Paul ainda não tá contente com a detonada de ontem. Numa batida mais marota, tá ligado que a mina pede pra ser "gentil e delicado", mas no fundo quer "amor duro". (claro que ninguém aqui tá fazendo apologia a violência contra a mulher. Ou será que tá? Cabe o debate: existe alguma "modalidade" "aceitável" de "violência" entre quatro paredes? "Um tapinha não dói"? Ou qualquer coisa que "possa doer" ou "com força" é, por definição, absolutamente condenável? Paul Stanley devia estar na cadeia? "Calma, também não é assim" ou "calma uma ova, é assim sim"?)

"Spit" (Gene, Scott Van Zen, Paul)

Uma das poucas faixas compartilhadas: Paul & Gene alternam vocais nesta disfarçada sacanagem. Nem todo mundo percebe, mas em  "você é o que (ou quem) você come, e eu quero algo doce" ele tá falando das garotas, hã, "plus size". É isso aí: quem falou que gordinha não tem vez? "Deixe os vizinhos falar", e quem fica com nojinho e "cospe" no chão nessa hora, não sabe o que tá perdendo! Levada marota e mais arrastada nos chamegos, e de repente fica ~acelerada~, hehe... O mundialmente conhecido hino americano faz a ponte pro solo.

"God Gave Rock 'N' Roll to You II" (Russ Ballard, Paul, Gene, Ezrin)

O grande hit do disco! Esse "II" do título é justamente pelo fato de eles terem regravado esta linda canção a partir de uma banda prog inglesa dos anos 70, o Argent. Com uma longa introdução heróica e triunfal, cai num decrescendo contemplativo mas feliz, no fim de tarde. Esqueça o ressentimento com as religiões em "Unholy", aqui tá todo mundo de bem: "Deus deu o rock & roll a você" e a todos nós. Liçãozinha de moral de Paul & Gene sobre ter que dar duro pra subir na vida. Pausa para os vocais "a capella", incluindo o próprio Eric Carr... mal sabia ele!! #rip :'-( No finalzinho Paul manda uns melismas meio Tylerzísticos.

"Domino" (Gene)

O povo aqui no Brasil acha que o tio Gene tá falando do jogo... sabem de nada, inocentes!! É o nome de uma mina que ele pegou umas épocas aí, e sim, o trocadilho é total porque ela "dominou" mesmo o "Papai Açúcar". Só tem um problema: ela não tem "idade pra ~votar~"... batida lenta e arrastada do Gene, só caminha harmônica na guitarra e chimbal quando ele conta a história, alternando com slides marotíssimos no baixo.

"Heart of Chrome" (Paul, Vincent, Ezrin)

Dá impressão que tem faixa repetida no disco. Mas antes de conferir o download, compare com "Tough Love" e "Spit", e perceba que as entradas são iguais mesmo. E mesmo a estrutura tá bem parecida, aquela batida mais anos 90, diferente do glam que predominou nos últimos discos. Aqui o Paul tá muito, mas muito emputecido com a mina, ela passou do ponto de aprontar. Ela vai pagar caro, ele vai acabar com a raça dela, etc... mas vem cá, o que isso tem a ver com "coração de cromo"? Simples, é uma fabricante de jóias e óculos cromados, lá das gringas. Ocorre que um dos produtos mais conhecidos deles é um anel com singelos dizeres. Subentende um presente de "amigo da onça" lá deles.

"Thou Shalt Not" (Gene, Jesse Damon)

Gene ultimamente tá estranho. Já são duas músicas no mesmo disco que ele não fala de mulheres: ele tá puto com esse negócio de religiões. Desta vez apareceu um "cara de preto e anel na mão" (um padre, né) querendo impor alguma baboseira pra ele. Teria algum cristão tentado converter o nosso baixista favorito?  Baboseiras ufanistas americanas sobre "ser livre", enfim, coisa lá deles. Solo matador sujão, com influência de Edvard Grieg (o maior compositor da história da Noruega) e seu inconfundível e mundialmente famoso "Rei da Montanha".

"Every Time I Look at You" (Paul, Ezrin)

Finalmente, uma declaraçãozinha de amor do Paul Stanley. Intro no violão, sentimentos, eu achava que não queria, mas quero sim, eu preciso de você, etc. Strings, solo lentão, refrão pegajoso, pausa no violão, etc. A voz de Paul soa meio rouca, principalmente nos trechos só de violão, estranhamente rouca como a voz de Criss.

"Paralyzed" (Gene, Ezrin)

Um longo slide perdido no meio do silêncio inicia esta faixa. Gene não tá nada bem, parece que ele tá entrevado numa cama, lobotomizado, embasbacado, abobalhado, anestesiado... "paralisado". Mas tá tudo bem!... é... tá tuuuudo beeeem...!... Mesmo mantendo o fatalismo, "ame a si mesmo porque eu nunca pude". Aí um falatório, supostamente dos médicos que já desistiram do caso, e um tema B. Aí ele "tem alta, mas sem mais nada a dizer", e tá tudo bem!...

"I Just Wanna" (Paul, Vincent)

E pra fechar o disco (originalmente), uma pegada bem glam, bem hard rock, bem pra cima! Só Paul que não tá lá muito na pegada, quer dizer, tá sim! Acabou de terminar com a mina e agora "só quer", de tudo um pouco, desde que seja pra "esquecer"! Pausa dramática lá pelo meio, e um belo arranjo vocal "a cappella". Refrão pegajoso.

"Carr Jam 1981" (Eric Carr)

Última homenagem ao Eric Carr, o motor de Maverick lá no fundão, que segurou o tempo, sem deixar cair, por quase uma década! Começa numa levada bem urbana nas guitarras ("car jam", em inglês, é "engarrafamento") e lá pelas tantas, um solinho na guitarra e todo mundo cai fora. Foco total nele. Viradas e mais viradas pontuadas no bumbo e fechando no splash, mais complexas a cada vez. Loucuras nos tontons, e uma levada quase heavy metal no ping ride, pra finalizar e voltar todo mundo pra fechar geral.

Adeus, The Fox. Nunca mais vou dizer que ~o Kiss nunca mais foi o mesmo sem o Peter~... você com certeza teve seu valor, e o Kiss nunca mais será o mesmo daqui pra frente! (ih mano, muito "nunca" numa frase só, vamo parar hein)

Mais infos sobre o disco, aqui. E quem não encontrar nas boas casas do ramo pode quebrar o galho no Youtube:



E é isso!