quinta-feira, 13 de março de 2014

Raul Seixas 7 - Há 10 Mil Anos Atrás (1976)

Oi, eu sou o Salinas! Depois do resultado fraco de Novo Aeon, este é o segundo maior sucesso de Raul Seixas (perde apenas para Gita).

Este disco também marca a interrupção na parceria com Paulo Coelho, que co-assina apenas uma faixa. Jay Vaquer, irmão da então esposa de Raul, Glória, também assina duas faixas.

Outro disco mais místico, filosófico, do que político. Raul aqui está mais preocupado com a condição humana, talvez já percebendo que peitar os militares não dá muito certo. E ainda por cima, agora é pai. As críticas à ditadura continuam, mas em poucas faixas, e bem mais disfarçadas. Quanto ao som, é aquela salada de ritmos que já estamos acostumados: tem aquela levadinha marota de rock quase com um cheiro de country que é tão a cara do Raul, tem baião, tem forró, tem tango, e tem temas triunfais quase religiosos, que te deixam completamente em paz.

"Canto para Minha Morte" (Raul)

Uma das faixas mais lindas da obra do Raul abre o disco com um tremendo tango, muito introspectivo, onde ele se pergunta como será sua própria morte. (esta música é muito tensa pra mim, tô chorando enquanto escrevo -- sério) Ironicamente, a morte dele não veio num "escorregão idiota, num dia de sol", mas sua empregada encontrou o "copo de uísque que ele não terminou de beber" ...aquela noite!!

"Meu Amigo Pedro" (Raul)

Faixa carregada de significados. Originalmente composta para seu irmão Plínio, que ao contrário de Raul tomou um rumo mais "normal" na vida. Diz-se também que ela também se aplicava ao seu severo pai de Paulo Coelho, que se chamava Pedro e que chegou a interná-lo em clínicas psiquiátricas. Outros acham que na verdade Raul está falando com o próprio Paulo, já que a parceria não está mais nos seus melhores dias. Também é possível enxergar o conflito de gerações, ou mesmo a leitura de "direita vs. esquerda" que já na época fazia sentido, e infelizmente poucos ainda superaram. O importante é ser capaz de respeitar a posição do próximo, sem querer impor seu ponto de vista, afinal "Todos os caminhos são iguais". Mas tem até quem diga que o "pedro" no caso é o pênis de Raul!! A plurissignificância de Raul, a esta altura, não é mais surpresa.

"Ave Maria da Rua" (Raul)

Raul pára por um momento, num rasgo de religiosidade (ele que tem muito mais Espiritualidade, isso sim), e numa faixa triunfal, teológica, quase um cântico de igreja, faz uma homenagem a essa que é a personagem mais importante da vida de qualquer um de nós: a mãe. Seja ela "Virgem Maria, Glória ou Cecília", (seria a própria Glória Vaquer? Ela já estava grávida de Scarlet). Mesmo assim, um pequeno trecho pode ter leitura política: "Não estou cantando só / Cantamos todos nós / Mas cada um nasceu / Com a sua voz, / Pra dizer, pra falar / De forma diferente / O que todo mundo sente". O velho truque de deixar o lance disfarçadinho no meio de coisas que não têm nada a ver com o assunto... outra que passou no nariz dos milicos e ninguém percebeu!


"Quando Você Crescer" (Raul / Paulo / Jay)

Esta faixa tem uma sonoridade estranhamente moderna, o comecinho dela pra mim soa total anos 90. Raul fala sobre as convenções sociais e o que se espera de nós: trabalhar, ganhar dinheiro, comprar casa, carro, casar...  e o conformismo de perceber que, no fim das contas, não existe muita escolha. É o mesmo que ele já falou em Ouro de Tolo e em É Fim de Mês. No fim das contas, é o tema central da filosofia: você pode ficar confortável com essa sua vida medíocre, mas isso é tão pobre... todo o resto do questionamento filosófico, de certa forma, depende dessa questão.

"O Dia da Saudade" (Raul / Jay )

Um deboche geral sobre o feriado de Finados, com sugestões de feriados tão irrelevantes quanto, por exemplo o "Dia de Fazer Cosca, no pé um dos outro". O tal palhaço que come lixo existiu mesmo, e Raul fala dele na famosa última entrevista no Jô Soares.

"Eu Também Vou Reclamar" (Raul)

Esta música me faz lembrar de quando eu comecei a ouvir Raul pra valer, no tal cd que a minha amiga gravou pra mim. Entre as "novas" que fui conhecendo, foi a primeira que eu curti. À primeira vista ele poderia estar falando da sobrecarga de informação, falando de notícias misturadas, MiGs, Vikings, propagandas de móveis estofados, "a verdade do universo e a prestação que vai vencer". Mas na real ele ataca a ~música de protesto~ que se tornou comum no Brasil nos anos 60. O tal dicionário, "cheio de palavras que eu sei que nunca vou usar" é na real o dicionário da censura, uma lista de palavras que os artistas não podiam usar, que segundo ele continha por exemplo "universidade". Além disso, Raul alfineta outros artistas que o criticaram, como Sílvio Brito, Belchior (o tal "rapaz latino americano", e também o "chato que lhe grita nos ouvidos": Raul teria usado essa palavra para descrevê-lo ao vivo) e Hermes Aquino. Uma metralhadora! E de quebra, reivindica o título de "Pai do Rock Brasileiro": "Porque eu fui o primeiro / E já passou tanto janeiro (...) Que eu já passei / Por Elvis Presley / Imitei Mr. Bob Dylan, you know... / Eu já cansei de ver / O Sol se pôr"

"As Minas do Rei Salomão" (Raul)

Regravação de uma faixa do Krig-Ha Bandolo, já analisada. Prefiro muito mais esta versão, que ficou bem mais rock & roll com baixo nervoso, a guitarrinha marota brincando lá no fundão, e o piano.

"O Homem" (Raul)

Outra bela faixa, a progressão de acordes no verso (e de novo o baixo carregando o galerê nas costas) é simples mas sensacional. Aqui Raul fala muito sobre voltar, e não querer mais ir embora novamente. Talvez esteja lembrando o quanto foi difícil ficar no exílio, mas ao mesmo tempo pensa no "preço" para poder ficar por aqui: abandonar as críticas e sofrer calado em vez de questionar.

"Os Números" (Raul)

Outra das minhas favoritas da obra Raulzística! Legal que ele vai chamando o pessoal um a um, e logo começa um forrozão daora. Raul pitagórico fala sobre os simbolismos de alguns números importantes: o 1 representando a unidade, o 2 com o confronto, o 4 com a estabilidade dos pontos cardeais, o 7 com a plenitude e a espiritualidade, e também o 12, tão importante na cultura judaico-cristã-ocidental.

"Cantiga de Ninar" (Raul)

Outra música inspirada pela paternidade. Raul, juntamente com Glória Vaquer, estava "grávido" de Scarlet Seixas, que na verdade já era sua segunda filha. (a primeira, Simone, foi com sua primeira mulher, Edith Wisner). Chama atenção o "Eu lutei mas perdi a guerra / Eu só posso te dar meu nome": Raul, apesar do sucesso e conforto material, já se resignava por não ter conseguido levar a cabo a Sociedade Alternativa, nem conseguiu a revolução que com certeza imaginou com suas críticas à ditadura.

"Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás" (Raul)

E pra dar aquela animadinha antes de ir embora, o clássico! Raul profeta conta vários episódios importantes da história para tentar provar a afirmação do título. Entre vários outros, ele cita Inezita Barroso quando "faz a cama na varanda". Aqui também tem um sarcasmo com a Igreja, quando diz saber tudo quando no fundo só dá desculpas do tipo "Deus quis assim". Se ela sabe tudo, Raul sabe muito mais! Até porque, afinal, é mais velho!

Mais infos sobre o disco, aqui. E quem não encontrar nas boas casas do ramo pode quebrar o galho no Youtube. (ainda vou descobrir por que alguns vídeos ele deixa postar direto e outros, só como link)

E é isso!


EngHaw - 6° Várias Variáveis



Olá, pessoas! (:

No ano de 1991 os EngHaw lançam seu 6° disco, também produzido pela própria banda, o 3° nesta formação. A sonoridade de volta ao rock n’ roll mais cru, deixando a influência eletrônica. Há quem diga que é um dos discos mais fracos da banda em termos de sonoridade, mas com músicas (especificamente composições, que viriam a ser regravadas com arranjos diferentes) que inegavelmente, estão entre os grandes sucessos da carreira até hoje, como: Piano bar, Ando Só, Muros e grades, e a regravação de Herdeiros da Pampa Pobre do Gaúcho da Fronteira.


Nesse mesmo ano, em decorrência do lançamento de Várias Variáveis, a Rede Globo fez um especial, com algumas das músicas do 5° e 6° disco, entre alguns recortes da entrevista com o trio. A despeito da visão que a crítica tinha da banda, os caras comentam sua postura quanto a isso, na posição de uma banda que não está nem aí pra o que a crítica pensa, e igualmente aos fãs! (Isso dito por pessoas menos articuladas daria muita polêmica! Rs) E explicam a declaração, dizendo que estão ali, fazendo o que estão ali pra fazer, a que são inspirados... E não afim de agradar, ou cantar o que a demanda pede. 
Vale a pena assistir!


A capa criada pelo próprio Gessinger, trás uma grande engrenagem em forma de serpente mordendo o próprio rabo, com o trio dentro, sugerindo que o álbum é como um ciclo que se auto renova, o que pode ser percebido em músicas com melodias gêmeas (o caso da primeira e ultima faixa, por exemplo), cercada por várias outras: “O Homem Vitruviano” (Leonardo Da Vinci); um símbolo radioativo; o emblema do 1/14° GAv (Grupo de Aviação) esquadrão Pampa, o relógio do Mickey Mouse (que aparece no início do vídeo “The Wall” – Pink Floyd); Beba Chimarrão (alusão ao logo da Pepsi-Cola); uma pirâmide; o emblema do Sport Club Internacional; Uma moeda; o adesivo “Senta aPùa” (lema do 1° Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira durante a 2° Guerra Mundial); um telefone a disco; o emblema do Grêmio; um smile; e o símbolo da ONU.
No encarte do disco existe uma enigmática dedicatória: 
“Este disco é dedicado ao homem só, seja ele quem for, esteja onde estiver”.


Faixa curtinha, com pouco menos de 1 minuto e meio, violãozinho bem suave e uns arranjinhos de guitarra fazendo um charme. Tem a base instrumental de “Nunca é Sempre”, ultima faixa do disco. Guessinger em duas vozes, uma sobrepondo a outra, numa composição com frases já conhecidas de outras músicas, brincando com as palavras, citando “Ilusão de Ótica” e “O Papa é Pop”. 
Fala abstrata e lindamente da fragilidade do sonho popular, tão vulnerável e ameaçado pelos interesses dos mais poderosos.
“Uma estória mal contada/ Uma mentira repetida/ até virar verdade”.

Música do conterrâneo Gaúcho da Fronteira, tem forte crítica sociopolítica, foi um dos singles do disco e se eternizou um dos maiores clássicos na voz da banda.
“Porque eu não quero deixar pro meu filho/ A pampa pobre que herdei de meu pai!”

De volta ao rock: Guitarra-baixo-bateria, com alguns efeitos de gravação de falas no final. A mensagem é de alguém que quer “tirar o seu da reta”: 
“Não vem que não tem/ Eu não devo nada pra ninguém!/ 
Me deixa fora dessa guerra santa/ Senta a brasa/ Quebra o pau/”.

Um dos maiores sucessos da carreira, dentre as músicas de amor “À La EngHaw”, iniciada ao piano e recheada com um belo solo do Licks. Fala de um amor condicional, e condição essa aparentemente inconcebível. De repente, quando o estado de graça se vai, fica evidente o óbvio. Muitas vezes o amor que alguém nutri é uma forma de solidariedade, a adoção da solidão alheia como nossa.

Inspirada no conto “Pergunte ao Pó” de John Fante. Mais um dos grandes sucessos da banda! Relembrando meu primeiro post, essa foi a primeira música que eu ouvi da banda, amor à primeira ~ouvida~ rs.
Iniciada com uma gravação, uma voz feminina diz: “Driver, follow that car!” (motorista, siga aquele carro!) e então o barulho do motor do carro em partida... Guitarra e bateria marcantíssimas... E uma letra pra qualquer lobo solitário se apaixonar!
“Ando só, pois só eu sei/ Pra onde ir, por onde andei/ Ando só nem sei porque [...]
[...] Ando só, como um pássaro voando/ Ando só, como se voasse num bando/
Ando só, pois só eu sei andar sem saber até quando/ Ando só...”


Começa num violãozinho simpático, e então entram o trio à todo vapor...
Retrata a solidão de uma vida na estrada, o lado sombrio do que parece uma aventura tão excitante.

Faixa curtinha, instrumental. Lembra um dial procurando uma estação no rádio...

Música com referência/alusão à “Sampa” do Caê.
“Este sou eu/ Na esquina, de novo.
Tudo é tão novo quanto esta canção
?Será que alguém presta atenção?”

Grande música! Fala da alienação da vida em que vivemos nas grandes cidades, o quanto nos afastamos cada vez mais de uma vida minimamente saudável, em busca de proteção para o mal que nós mesmos produzimos. Doidera.
E no final, só pra não perder o costume, rs, aquele toque de #BrokenHearted
“Viver assim é um absurdo/ Como outro qualquer/ 
Como tentar o suicídio/ Ou amar uma mulher”.
Tarefa igualmente nada fácil, rs.

Essa faixa conta com uns trechos narrados pelo Cid Moreira, então âncora do Jornal Nacional, e tem tudo a ver com a letra, que fala de senso crítico. 
“Quem quiser saber por que/ E não quiser se arrepender/ 
Não pode acreditar em tudo/ Tem que acreditar em algo”.

Relativamente curta, a faixa tem base no piano, uns solos no violão e vai crescendo uma percussão mais aguda. 
Parece um ensaio, um curta que tenta retratar o Brasil, dividido em takes vacilantes.

Tem o mesmo clima de curta*, piano, violãozinho, vai crescendo uma percussãozinha... Parece uma despedida, uma continuação de sua jornada sem rumo certo, sem vista e sem fim.
“É sempre a mesma história/ É tão difícil partir
É sempre a mesma história/ É impossível ficar
É sempre mais difícil dizer adeus/ Quando não há nada mais pra se dizer”.

Bem hard rock...  Guitarra reinando! Dá-lhe Licks!
A eterna inconstância da humanidade de cada um.
“Às vezes parece que eu não tenho medo
Às vezes parece que eu não tenho dúvidas
Às vezes parece que eu não tenho nenhuma razão pra chorar [...]
[...] Como tudo na vida, nunca é sempre”.

E então entra ela, como numa continuação, uma história muito bem amarrada que se inicia continuando a ideia da música anterior, e dando a melodia da primeira, porque “A gente vive assim/ Sempre acabando o que não tem fim”.

*Não achei um vídeo com o áudio do álbum na íntegra, mas pra quem fica na vontade vale a pena ver o vídeo do especial que também esta bem legal! (putz, rimei.. ¬¬" rs)

Te vejo em 1992, com o álbum "Gessinger, Licks & Maltz". Tchau! o/

terça-feira, 11 de março de 2014

O Rappa - O Rappa (1994)

Como comentar o primeiro disco de uma das bandas nacionais mais complexas que existem? Disco este que não fez sucesso e que não possui quase nada de dados na internet. A propósito, é o trabalho que menos gosto da banda e o que menos escutei. Difícil, não é mesmo?

O álbum de estréia da banda O Rappa não obteve a repercussão esperada por todos. Na verdade, não teve nem forças para introduzir a banda no cenário musical brasileiro. Levando o mesmo título da banda, "O Rappa" foi lançado em 1994 pela Warner Music e contou com a produção de Fábio Henriques. Marcelo Falcão no vocal, Alexandre Menezes (Xandão) na guitarra, Nelson Meirelles no Baixo, Marcelo Lobato nos teclados/backing vocals e o mestre Marcelo Yuka assume a bateria.


1 - Catequese do Medo

A faixa de abertura do disco já traz à tona um dos principais temas da banda: crítica social. Composta por Marcelo Yuka, é uma música dançante com uma letra bastante clara.

"A fome é, um esperma
por entre as pernas
da violência
E o egoismo que excitou
as diferenças em que merece
um aborto imediato"

2 - Não Vão Me Matar

Essa faixa composta pelo próprio Marcelo Falcão é uma possível crítica aos políticos. Se não for, não faço a minima ideia do que é. Conta com uma melodia mais voltada ao reggae e "falas" tipicas do rap.

"Enganam o povo com promessas
Tentando induzi-los a acreditar
Que a consciência do ser humano
De repente pode até falhar"

3 - Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro

A única faixa do disco que obteve algum destaque tem um ritmo mais rápido e remete ao preconceito racial ainda forte. Marcelo Yuka, compositor da faixa, busca mostrar que depois de décadas o racismo ainda não acabou. Na letra, amigos são parados pelos "homens" e, mesmo mostrando os documentos, os policiais não os deixam. Yuka ainda faz menção à AIDS na África e como a situação é tratada pela mídia.

"Quem segurava com força a chibata
Agora usa farda
Engatilha a macaca
Escolhe sempre o primeiro
Negro pra passar na revista"

4 - Take It Easy My Brother Charles

A quarta faixa do disco é nada mais, nada menos, que uma versão de Take It Easy My Brother Charles do mestre Jorge Ben Jor, lançada originalmente no ano de 1969 no clássico disco "Jorge Ben".

5 - Brixton, Bronx ou Baixada

Outro tema tratado pela banda O Rappa é a questão da religiosidade. Neste primeiro disco a música Brixton, Bronx ou Baixada ainda conta como uma critica social, mas apresenta também um cunho religioso. De longe é a faixa que mais gosto do disco e que ganhou grande destaque no lançamento do "Acústico Mtv - O Rappa" no ano de 2005. Marcelo Yuka e Nelson Meirelles falam das desigualdades sociais e da influência que a religiosidade tem na vida das pessoas. Também entendo como uma defesa a liberdade religiosa, musical e até mesmo politica.

"Cada qual com seu James Brown
Salve o samba, hip-hop, reggae ou carnaval
Cada qual com seu Jorge Ben
Salve o jazz, baião e os toques da macumba também
Da macumba também"

A saber:

Brixton = bairro de subúrbio de Londres, onde há uma grande concentração de negros e afro-descendentes das colônias inglesas.

Bronx = conhecido bairro negro americano.

Baixada = tirem suas conclusões.

6 - R.A.M.

Devo confessar que a sexta faixa do disco ainda é uma incógnita para mim. A única coisa que descobri é que "R.A.M" é a sigla de "ritmos, ações e manifestos" (fácil isso). Seria uma menção/defesa aos protestos da época? Uma música que busca encorajar a população a tomar as ruas e manifestar-se? Sei lá.

"Nação não é bandeira
Nação é união
Família não é sangue
Família é sintonia"

7 - Skunk Jammin

Com participação de Marcelo D2, a música cita grandes revolucionários como Gandhi, Charlie Chaplin, Bob Marley, Dalai Lama e até a Dona Zica (?). A faixa é uma abertura para a seguinte do disco, tanto é que possui apenas 34 segundo.

"Tem razão quem tem paixão
Tem razão quem fala
Com a voz do coração"

8 - Coincidências E Paixões

Acredito que Yuka se referia a uma questão religiosa nessa faixa. Ou não. Marcelo D2 volta ao final da música para o refrão chiclete, já cantado na faixa sete, citando os revolucionários e também se junta a Falcão para:

"Tem razão quem tem paixão
Tem razão quem fala
Com a voz do coração"

9 - Fogo Cruzado

A nona faixa do disco remete aos conflitos existentes dentro da própria favela, seja entre facções diferentes ou com a policia. Também cita a questão das drogas e o poder que ela traz aos traficantes.

"No Gueto o medo ilude e seduz
Com o poder da cocaína
Quem comanda o sucesso
Das bocas de fumo da esquina"

10 - À Noite

Mais uma incógnita.

11 - Candidato Caô Caô

A décima primeira faixa do disco é uma versão inicialmente lançada por Bezerra da Silva, que inclusive se junta a Falcão para interpretar a música no disco. É basicamente uma critica aos políticos.

12 - Mitologia Gerimum

Esta é mais uma faixa que ganhou destaque após o lançamento de "Acustico Mtv - O Rappa". Acredito que a música faça menção às pessoas que deixam sua cidade natal em busca de oportunidades melhores, mas que ainda assim enfrentam grandes dificuldades.

"Vou, vou, vou voltar
Prá casa de novo
Troquei poeira por fuligem
Fiz um pacto em São Cristóvão
O couro da zabumba
Guarda um pedaço"

13 - Sujo

A faixa que fecha o disco é outra incógnita para mim. No último verso há uma critica clara a sociedade, para variar um pouco. É o que sei.

"Sujo, mas não tão sujo quanto a sociedade
Frio, mas não tão frio quanto a impiedade
Bêbado, mas não tão ébrio quanto a passividade
Sujo, frio e bêbado"

Abaixo o disco na íntegra para vocês. Aproveitem. O próximo disco a ser comentado, e garanto que será de uma forma muito mais completa, será o "Rappa Mundi". Abraços.

domingo, 9 de março de 2014

Bem vindos (de novo)

Buenas! Sejam bem vindos (de novo) ao Disco a Disco!

Estou aqui para me apresentar, já que esta é a minha primeira postagem no blog.

Sou David Bruno, tenho dezoito anos e sou morador de Indaiatuba (interior de São Paulo). Sou estudante de letras, então meu foco sempre será a análise das letras das músicas (of course), muito mais do que a parte instrumental. A propósito, meu conhecimento na área musical é bastante limitado, porém sempre passível de aprimoramentos. Não sou nenhum expert em critica ou análise de músicas/letras e nem sequer toco algum instrumento musical. Mesmo assim me aventuro no mundo da música e tenho prazer em compartilhar coisas boas.

Eu escolhi, para comentar Disco a Disco, a banda O Rappa.


Conhecida pelas letras de impacto social e por não ter um estilo musical definido, O Rappa surge após a passagem do jamaicano Papa Winnie pelo Brasil. Acontece que uma banda foi formada as pressas para acompanhar o cantor e, após a partida deste, os integrantes resolveram continuar com a formação. São eles: Nelson Meirelles (integrante até 1995), Marcelo Lobato, Alexandre Menezes (Xandão) e Marcelo Yuka (integrante até 2001). Os quatro anunciaram no jornal O Globo que precisavam de um vocalista e eis que, para nossa alegria!, surge Marcelo Falcão. Isso tudo aconteceu em 1993 na cidade do Rio de Janeiro. Logo em 1996, com a saída de Meirelles, Lauro Farias assume o baixo. Em 2001, após conflitos internos e uma tragédia que o deixou paraplégico, Marcelo Yuka deixa a banda e Lobato assume a bateria.

Se fizeram as contas já perceberam que a banda, em 2014, completará 21 anos de existência. São seis discos de estúdio, mais de cinco milhões de cópias vendidas e milhares de fãs espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Após um hiato de cinco anos, em 2013, a banda lançou o disco "Nunca Tem Fim..." que foi considerado um dos melhores álbuns do ano por diversos blogs de música. O hit Anjos (Pra Quem Tem Fé) já ultrapassou 10 milhões de visualizações no YouTube e caiu na boca do povo.

Convido-os a nos aventurarem juntos pela discografia desse ícone da música brasileira. Estando prontos ou não, vamos lá! O primeiro disco tem o mesmo nome da banda, O Rappa!


sábado, 8 de março de 2014

Especial Semana da Mulher - Baby Consuelo



Baby Consuelo / Baby do Brasil - Canceriana Telúrica (1981)

Olá pessoal, eu sou a Ludmila e estou aqui para fechar a semana de posts especiais em homenagem ao dia da mulher! Lembrando sempre que falar em dia da mulher, é falar com respeito de um histórico de lutas por igualdade de direitos.
Minha escolha sobre quem seria minha homenageada foi difícil. Mas, em algum momento, ela tornou-se óbvia para mim. Explico:
Sabe aquelas músicas ou artistas que você conhece lá na infância e que acabam adquirindo um significado especial pra você, e de alguma forma, você olha pra trás e percebe que sofreu uma grande influência deles (as) não apenas na sua formação de gosto ou preferência musical, mas também em questões comportamentais, ideológicas e até espirituais?
Pois é, eu poderia citar alguns (mas) aqui que tiveram essa importância pra mim. Raul é um. Rita Lee também. Sem falar nos Beatles, como grupo e cada um individualmente.
No entanto, quando fui buscar na minha memória e história pessoal algumas artistas que pudessem ter exercido essa influência na minha formação enquanto pessoa, enquanto mulher, mas que também tivessem alguma representatividade enquanto artista feminina, passei por diversos nomes, mas Baby do Brasil foi o que ficou.

Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade, Baby Consuelo, Baby do Brasil, ou simplesmente Baby é a personificação arquetípica da grande mãe. É ânima por excelência, expressa em sua maternidade, em sua sensualidade, em sua sabedoria, em sua busca pelo autoconhecimento. Mas também em sua constante quebra de paradigmas.
Sem o fatalismo de uma feminilidade passiva e de reprodutora, é mãe de 6 filhos. É uma mulher independente, guerreira, lutadora, uma artista talentosíssima e versátil. Fortemente espiritualizada, desprendida de quaisquer papéis e normas sociais impostas,  hoje em dia é pastora evangélica. Não vejo outro caminho que pudesse ser trilhado por ela.
 Comecei falando da minha infância, e assim justifico a escolha do álbum Canceriana Telúrica. Esse álbum me acompanhou durante a infância. Lembro-me de como gostava daquela imagem da capa e da contra capa, aquele colorido todo. E também do jeitão da baby, de cantar e de ser.
Eu a admirava, ela era linda ao mesmo tempo em que não era nada convencional. Ela não tinha nada do estereótipo de feminilidade que me era ensinado e já pesava, mesmo criança. Mas ainda assim ela era extremamente feminina. Suas atitudes contestadoras, aparência exótica, os cabelos coloridos, as roupas extravagantes, e a alegria transbordante naquele sorriso imenso de uma pureza quase infantil. Era a mulher que eu queria ser.
Mas depois eu cresci, e por muito tempo, nem me lembrava dela, nem ouvia mais suas músicas.
Mas um dia, alguns anos atrás, eu pintei o cabelo de roxo. Alguém, comentando o fato fez referência à Baby e suas cores de cabelo. Tudo voltou na minha memória. E também nessa época, os Novos Baianos voltaram, e eu pude vê-los na Virada Cultural. Então pude reacender minha admiração pela Baby, como mulher, como pessoa, como artista e sua obra desde os tempos dos novos Baianos, até hoje.

Infelizmente, não encontrei a ficha técnica do disco, nem tive oportunidade de ir procurar no vinil, mas soube pelo Wikipedia que vendeu 1.400 Milhões de cópias – o que não é pouco – e que Pepeu Gomes, seu marido e companheiro de Novos Baianos é o guitarrista.
O disco também conta com o sensacional José Roberto Martins Macedo, mais conhecido como Baixinho. Excelente percussionista, que já trabalhava com Baby e Pepeu desde os tempos dos Novos Baianos. Não à toa a percussão e a guitarra são a cara desse álbum.

A faixa que abre muito bem disco é uma maravilhosa composição de Jorge Ben Jor (que na época era só Jorge Ben):
 


Música maravilhosa! Aquela levada samba-rock do Jorge (e também dos novos baianos). Uma percussão bacaníssima, muito presente.
A letra é linda, e me emociona ainda hoje... Como ficar indiferente à dizimação que ocorreu e ainda ocorre dos nossos povos nativos?
“Antes que o homem aqui chegasse / as Terras Brasileiras eram habitadas e amadas / por mais de 3 milhões de índios / Proprietários felizes Da Terra Brasilis / Pois todo dia era dia de índio / Mas agora eles só tem / O dia 19 de Abril”
 

2-Paz e amor (03:59)
Composição de Baby, Pepeu e tabém de Didi Gomes, baixista irmão de Pepeu.
Levada bem anos 80 com a cara do Brasil pós-tropicalista. Sintetizador e Percussão dando a cara.

Letra bastante espiritualizada, O tema neo-hippie Paz e amor parece celebrar um Brasil “Pós Ditadura”, com muita esperança no futuro, como que acreditando numa criança que nasce. Solos deliciosos do Pepeu, cheio de virtuosismo, sem ser chato.



3-Telúrica (04:22) 

Letra de Baby e Jorginho Gomes, outro irmão de Pepeu, excelente baterista.

Um reaggaezinho swingado, com aquela guitarra cheia de efeito do Pepeu, dando um “peso”, mas sem exagero. Na medida. Bastante percussiva, a voz suave de Baby no pré refrão convida a uma reflexão

“Não aceito preconceito / Para ser telúrica.”
Tá e você aí se perguntando “mas que raios é telúrica”?
Pois é, pode procurar no dicionário: telúrico é aquilo que se é da, ou refere à Terra. Assim, baby, reafirma-se como canceriana, do elemento Terra, e homenageia sua condição mulher, afinal, somos filhos de Gaia a grande mãe.


Composição de Pepeu e Charles Negrita, também percussionista, que também já tocou com os Novos Baianos.
Sincretismo religioso é o que há. E é o que podemos identificar desde sempre na obra de Baby: a multidimensionalidade do místico, da espiritualidade, da reverência às manifestações divinas. Sejam Krishna, Buda, Xangô, Jesus Cristo.
Aqui, a força do candomblé é vem com tudo.
E a percussão? que dizer? Fantástica.
Uma ode à
LogunEdé, orixá filho de Oxum e Oxóssi


Composição de Baby
Baladinha, para corações apaixonados. Mas ainda com aquela certa inocência infantil, que surge na suavidade e doçura da voz de baby, quase sussurrada.
É tipo um bolero, tem uma pegada meio latina principalmente na percussão muito marcante.
Mas também tem a cara dos anos 80, com a presença de um sintetizador dando toda uma ambiência ao som. Bom fechar os olhos e viajar.

6-Canceriana (04:41)
Outra composição de Baby.
Sintetizadores com cara de “som espacial”, numa pegada samba-rock, pra falar de temas místicos, signos do zodíaco, espiritualidade. Nada mais brasileiro, psicodélico e pós-tropicalista.

7-Juventude (05:04)
Composição de Pepeu e Baby.
Um riff de guitarra, uma pegada mais “rock n’ roll” pra falar de juventude. Nada mais clichê. Se não fosse a percussão lá, dando as caras e numa batucada tipicamente brasileira, enquanto a guitarra de Pepeu segue moendo no solo.
Letra bacaníssima, um elogio à juventude.
"Navegar até a ilha / Mas enquanto não chegar / Vencer as ondas dessa vida /Que o tempo não pode esperar"






Composição de Pepeu, Baby e  Galvão, outro ex-companheiro dos Novos Baianos.

E essa canção então? Uma delícia de música para fechar o álbum com chave de ouro.

Começa com um toque de Umbanda (talvez seja isso, pois reconheço meu total desconhecimento nessa área, infelizmente)
E segue nessa mesma batida, mas introduzindo a guitarra e todos os outros instrumentos lá em cima, para dar vivas aos Reis Nagô, aos orixá e à Bahia de São Salvador.
Tem uma pausa linda lá no meio, preenchida por um teclado que passeia.
Ouvi com fones de ouvido e nitidamente percebi que ele vai rapidamente de um canal pra outro e volta (ou seja, passa do lado direito para o lado esquerdo, e volta). Puta sacada. Preenche de um jeito incrível.

 
Enfim, esse álbum é uma obra completa, muito bem trabalhada, muito rica em sonoridades e harmonias.
É a Baby (ainda Consuelo) no auge de sua carreira solo, mostrando-se uma cantora madura, uma compositora talentosa, uma artista completa.
 

Não encontrei o álbum todo para ouvir no youtube, infelizmente. Mas, consegui baixar por aqui.