quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Charly García 2: "Clics modernos", 1983

Clics modernos é o segundo disco solo de Charly García, lançado em 5 de novembro de 1983 e considerado por muitos como o melhor disco do artista e um dos melhores da história do rock argentino. 

As gravações deste disco foram feitas em Nova Iorque nos estúdios Electric Lady (criados por Jimi Hendrix). Estando nesta cidade, Charly comprou vários instrumentos novos que permitiram a experimentação de novos sons, atacando com o uso de samplers e sintetizadores modernos. Contando ainda com Pedro Aznar nos baixos fretless, Casey Scheuerell na bateria, Doug Norwine no sax na faixa "Nuevos trapos", além do lendário guitarrista de jazz, Larry Carlton na guitarra nas faixas "No soy un extraño", "Los dinosaurios" e "Plateado sobre plateado". 

Diferentemente do disco anterior que tinha uma estilo mais próximo do Rock Progressivo, este já tem uma pegada mais New Wave com temas mais dançantes.


Conta a história que o nome do disco foi escolhido aleatoriamente após um passeio pelas ruas de Nova Iorque onde Charly viu este graffiti com o mote «MODERN CLIX». Aleatoriamente inspirado por este nome, Charly mudou o nome do álbum que inicialmente se chamaria "Nuevos Trapos" para "Clics Modernos".


São 9 faixas, todas escritas e compostas por Charly García:


1. Nos siguen pegando abajo (pecado mortal)

Assim como diversas canções do disco anterior, aqui vemos referências à ditadura militar argentina. A letra faz referências à censura moral, o abuso de poder e violência. 

"Miren lo están golpeando todo el tiempo 
lo vuelven vuelven a golpear 

nos siguen pegando abajo."

2. No soy un extraño

A música é uma espécie de tango macabro com samplers e uma linha de baixo constante. "No soy un extraño" o autor fala como um narrador sobre as transformações que seu local passa a viver e não se pode enfrentar as mudanças com a mesma atitude ou usar o mesmo parâmetro para medir duas realidades distintas (no hay que pescar dos veces con la misma red). Uma clara alusão ao processo de redemocratização que estava por vir. 

3. Dos cero uno (transas)

Nesta canção Charly ironiza sua suposta falta de princípios:

"Él se cansó de andar haciendo canciones de protesta
Y se vendió a Fiorucci.
Él se cansó de andar haciendo apuestas
Y se puso a estudiar.
Un día se cortará el pelo
No creo que pueda dejar de fumar"

O artista que sempre ostentou cabelos compridos e um estilo hippie nos anos 70, causou estranheza aos fãs quando apareceu com o cabelo curto. Teria Charly se vendido e abandonado as canções de protesto? É com isso que a letra brinca...

4. Nuevos trapos

A princípio a letra parece falar sobre uma relação amorosa (tema constante na obra de Charly)

"Daría cualquier cosa por amor
daría cualquier cosa por poderte dar un poco más
más de lo que puedo dar.
Pero a la vez quiero decirte que
te encargues de tu vida
porque yo no soy mejor que vos
vos no sos mejor que yo."

Mas logo o discurso se desdobra no que pode ser uma clara alusão à ditadura:

"Habiendo compartido aquel terror
habiendo convivido en esta desolación total

ya no es necesario más"

5. Bancate ese defecto

"Bancate ese defecto" é uma crítica à compulsão pela estética e pela cirurgia plástica, dizendo: "Ei, encare esse defeito!". Esta leta basicamente fala sobre encarar e assumir os defeitos ao invés de disfarçá-los ou mascará-los. Por mais que tente escondê-los eles sempre aparecerão, então o melhor seria aprender a conviver com eles, e até um dia descobrir que o defeito pode ser uma virtude. 

6. Estoy verde (No me dejan salir)

Os teclados e os gritos de James Brown sampleados marcam o ritmo desta música que gruda na cabeça. A ideia desta letra é parecida com a de "Yendo de la cama al living" só que bem mais pop. E este confinamento retratado na canção do primeiro álbum aqui não é só física, mas mental na impossibilidade de sentir, produzir e amar. Esta com certeza é a música mais pop e dançante do álbum.

7. Los dinosaurios

"Los dinosaurios" é a canção que mais constrasta com o conceito do disco, parecendo um flashback da banda Serú Girán, com pianos e o estilo de cantar próprios desta fase. A letra fala sobre os desaparecidos da ditadura: os amigos do bairro, os cantores de rádio, os amores, os jornalistas. E no final revela uma esperança de que por fim "los dinosaurios (a ditadura) van a desaparecer".

8. Plateado sobre plateado (huellas en el mar)

Esta canção fala sobre o exílio e sobre os "vôos da morte" que era uma técnica utilizada pela ditadura argentina de atirar corpos ao mar em pleno vôo.

"Huellas en el mar" significa em português "pegadas sobre o mar". Quando você pisa em terra firme sua pegada se fixa por mais tempo, mas se você pisa na água esta pegada existirá por uma fração de segundos. Esta letra fala sobre como tudo passa tão rápido. 

"Huellas en el mar
Sangre en nuestro hogar
Tenemos que ir tan lejos para estar acá, para estar acá."

9. Ojos de videotape

A única música lenta do disco, "Ojos de videotape" começa lânguida com um piano e vai crescendo com a entrada do baixo e das baterias eletrônicas que quebram a impressão de ser uma música do Serú Girán. A letra é triste e parece falar sobre uma despedida, incorporando uma sensação de frieza ou indiferença característicos da contemporaneidade. O conjunto de letra e música conferem densidade à faixa que encerra o álbum.




Assim fechamos o segundo álbum da discografia solo de estúdio de Charly. "Clics Modernos" recentemente completou 30 anos de seu lançamento e continua sendo um disco fundamental de sua obra, marca a mudança de estilo do artista rompendo a imagem hiponga setentista que trazia de seus trabalhos anteriores e começa a apostar em temas mais pops, ainda que tenha clara influência do período de governo militar que se encerrava naquela ano.

Disco na  íntegra:




No próximo post voltarei para falar sobre o álbum "Piano Bar", lançado em 1984.

flw vlw!


2 comentários:

  1. E não é que é bom! Nunca tinha ouvido, ouvi o CD todo agora... Mto gostoso!!

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  2. Muito bom!
    A cara dos anos 80!
    Super new wave, com pegada política. Bacana demais!

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